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Meus primeiros dias na alfaiataria

Meu primeiro dia de trabalho com o alfaiate foi um dia tão extra-ordinário que saí de lá com dor de cabeça. Parecia que eu havia passado o dia entre um universo paralelo e um campo de guerra. Foram tantas coisas que aconteceram ao mesmo tempo que agora, 7 semanas depois, só lembro dos tapas na cara.

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A parada é que depois de 10 anos costurando, depois de alguns cursos, de estudo, de pesquisa, de mais de 3,5 anos dando aula, depois de tanta coisa feita, a idéia que eu tinha é que eu costurava… hummmmmm, com um mínimo de decência, vamos assim dizer.

Sempre soube que não sei de tudo em costura e que a estrada é longa, mas ver o alfaiate riscando uma calça para fazer uma simples barra pode ser descrita como cena chocante.

A forma que ele risca, o jeito que ele mede, a técnica que ele trabalha, tudo, absolutamente tudo é diferente do que eu vi nesses 32 anos. Claro que nem tudo é pelo fato dele ser alfaiate, aquilo é dele, é o jeito dele fazer, mas OLHA, sério, foi um choque.

Era tão inteligente e eficaz, ele fez todo o trabalho tão rápido e ficou tão bom que foi um tapa na cara. Nem uma barra que preste eu devo ter feito nessa vida antes disso.

O bom desse primeiro dia é que tivemos muito trabalho para fazer. Talvez tenha sido um dos dias (até hoje) com mais movimento na loja e foi como um furação: um tanto de trabalho e tudo, absolutamente tudo feito de uma forma nova, inteligente e certeira. A cada hora que passava eu me tocava que eu não sei é de nada e que há muito o que aprender.

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Uma das coisas mais difíceis da primeira semana foi a dificuldade com a língua.
Entenda: ele não me conhecia, eu não sabia explicar tudo à ele e eu nunca havia trabalhado numa alfaiataria. Não é fácil provar que é capaz falando apenas “I can, I know, Ok” e seguir o dia trabalhando em silêncio por incapacidade de comunicação.
Ser estrangeiro às vezes é ser mudo.

Até hoje ele fala: mas seu inglês é bom, você só precisa deixar de ser tímida! E eu respiro fundo e sorrio porque minha timidez acaba no 8* minuto, mas meu vocabulário é restrito.

Grande parte do trabalho que temos são reformas e ajustes e, sim, apesar de eu saber fazer parte das coisas coisas que ele faz, percebi que ele não sentia a mínima confiança em mim e desconfiava dos resultados em 90% do tempo. Não foi uma semana fácil.

Outra dificuldade foi o gênio do homem: um grego perfeccionista e sem paciência (ele me disse isso quando me admitiu, que depois desses anos não tinha paciência pra ensinar nada à ninguém) me explica uma vez e fim. Presto/prestei atenção em tudo com muito cuidado pois nos primeiros dias percebi que tenho fazer tudo exatamente igual ao que ele faz.

Fazer tudo do jeito dele não é sobre chegar no mesmo resultado, é fazer TUDO do jeito dele: pegar a tesoura do mesmo jeito, usar as mesmas ferramentas, fazer o mesmo processo. Não é fácil colocar sua forma de trabalhar no bolso e repetir o jeito dele pra evitar qualquer desgaste. Foi difícil, mas aprendi depois de algumas ranhuras.

Mesmo me sentindo super insegura, eu aproveitava cada minuto para aprender. No meu segundo dia de trabalho ele abriu um casaco para fazer um ajuste e eu quase tive um treco. Passei os últimos meses estudando sobre a construção dessa peça e, mesmo tendo feito 3 (essa, essa  essa x dois ), foi tudo na base do achismo e da leitura. Quando ele retirou o forro meu coração bateu forte (sou besta? hahaha): tudo o que eu havia visto no livro estava ali, na minha frente. Lembro até hoje o nome do dono da peça – Teira – um cliente antigo.

O alfaiate explicava como deveria ser feito, alterava as medidas com precisão e me mostrava por A+B que tudo tem que ficar do mesmo jeito que antes. Ajuste bom é aquele que fica imperceptível e veste como se fosse feito sob medida.

Às vezes eu parava e pensava: meu, como é que eu dava aula sem saber disso tudo???

Sim, eu sempre fui honesta com minhas alunas, sempre falei que não sabia tudo e que ensinava o que sabia, mas OLHA, hoje olho pra trás e penso no tamanho da inocência de ter tido uma escola com nome de rainha sem antes ter tomado um tapa na cara de um alfaiate com uma simples barra quase insignificante. A vida é uma escola mesmo.

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No decorrer dos dias (ainda na primeira semana) ele sacou que eu trabalhava direito: me elogiava toda vez que fazia algo tão bom quanto o dele e me agradecia ao final do dia, sempre pedindo para que eu voltasse no dia seguinte para mais um dia de teste/aprendizado.

Era um misto de sensações tão loucas que hora eu queria:
chorar – quando ele vê algo que não gosta, navega entre a grosseria e a estupidez;
agradecer por aprender
sorrir de alívio por fazer direito.

Só sei que as primeiras semanas foram como jogar o corpo numa fogueira, todos os dias.

Só consegui comemorar meu emprego e me sentir um pouco mais tranquila um mês depois de ter começado. Hoje as coisas estão mais fáceis: me adaptei ao jeito dele, não levo nenhuma indelicadeza pra casa, atendo os clientes com alguma facilidade e já recebi diversos elogios de mulheres com os ajustes em roupas femininas (coisa que ele abomina e odeia fazer). De Zara à noivas, tudo fica na minha mão.

Ele ainda me cobra a agilidade que ele trabalha, mas percebeu que meu trabalho artesanal /manual chega à resultados superiores aos dele – e ele reconhece. Pequenas vitórias diárias.

Enfim, eu realmente precisaria vir à Nova Zelândia pra aprender tudo o que estou aprendendo, pra trabalhar menos e produzir mais, pra tornar meus estudos mais interessantes, pra viver o novo. A vida que vivo hoje não cabia no formato de vida que eu vivia antes.

A mudança se torna completa quando ela não repete as vivências.
E apesar da saudade e dos tropeços, nunca estive tão agradecida.

 

com amor,
Patricia Cardoso

obs1. Ainda não dominando o inglês, mas já fazendo barras iguais às do alfaiate com 40 anos de experiência hahaha.
obs2. Post sobre procurar emprego AQUI e o final de um ano sabático AQUI.
obs3. Se quiser receber as postagens do blog no seu email, basta colocá-lo naquele box ao lado, em cima do link do Instagram =)

31 comentários em “Meus primeiros dias na alfaiataria”

  1. Que legal Pat que você está trabalhando na alfaiataria! Pelo visto está sendo uma experiência de muitos desafios e aprendizado. E com certeza vai ser de muito sucesso!
    Depois ensina a gente a técnica grega de fazer barra de calça! Hahaha
    Beijos, Dani

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    1. Dani, vou ensinar. Não é nada de outro mundo, mas ele mede diferente e com muita precisão, fiquei chocada.
      Agora já acostumei, claro, mas toda vez que ele pega num serviço e faz só pra eu assistir e aprender, fico passada.
      O omi é meio grosso mas bastante talentoso 🙂

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  2. Pati, estou muito feliz de saber que você se arranjou em um lugar para seguir na costura. O mundo dá seus jeitos, não é mesmo? Você é extremamente talentosa, detalhista e carinhosa com o seu trabalho. Eu morreria se você optasse por qualquer outra coisa. Sorte, maravilhosa! E obrigada por esses textos lindos. ❤

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    1. Ain, vc é uma fofa. Esses feeedbacks com tanto carinho dão uma aquecida na vida quando a gente se sente só, nesse fim de mundo aqui ❤
      E guenta aí que quando eu voltar vou te passar um tanto de coisas ❤

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  3. Só queria dizer que estou adorando acompanhar a sua história! Cheguei aqui por acaso umas semanas atrás quando estava pesquisando sobre máquinas de costura, e adorei o seu canal e o seu blog!

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      1. Nossa Pat olha que coincidência eu To aqui lendo os comentários e vi esse pode da Paula ela é uma amiga de infância/ vizinha que reencontrei através do Facebook há algumas semanas! Que mundo pequeno!!

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  4. Oi Patricia,

    Como sempre seu texto esta ímpecavel. Que seria de nós (seguidoras)sem teus textos , teus videos , eles trazem um pouco de luz e cor para nossa vida.O que é bom tem que ser elogiado, espero que podamos contar sempre contigo, que vocè sempre tenha saúde e disposiçao para seguir escrevendo tuas experiencias e ensinamentos. Quanto ao grego , espreme ele , saca tudo o que você pode dele , para compensar os maus tragos que ele te faz passar e depois de tudo o mundo é bonito porque as pessoas sao diferentes.
    Um Abraçao
    Maria

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  5. Perdao Patricia , talvez me expresei mal, saca tudo o que você puder no sentido de ensinamento , amplia teus conhecimentos no campo de costura (outra coisa nao) e de passo da umas classes de gentileza e cortesia que só os brasileiros tenemos .
    Maria

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    1. hahahaa dei muita risada, MAria. Eu entendi o que vc quis dizer. Então, agora já está tudo mais fácil estamos nos entendendo melhor e ele, mais calmo/paciënte. Claro que (ainda hoje) quando vê algo que não gosta, fica estressado e me dá vontade de dar um murro nele, mas eu respiro fundo e penso no tanto de coisas legais e novas que estou aprendendo. Tem sido bom, de verdade. Acho que é o emprego que mais está me rendendo aprendizados, em todos os sentidos da vida (língua, costura, paciência etc). E a costura, dando um salto bem positivo. Espero um dia voltar a dar aulas e repassar para as pessoas, porque é o que mais gosto de fazer. Beijo grande =)

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  6. Pati, imagino o quanto tuuuuudo deve ser difícil, eu choraria horrores rs…mas no final como vc disse é uma aprendizagem e tanto, eu admiro mto seu trabalho, e a costura, meu Deus, como ela é mágica! Um grande beijo!

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    1. Andressa, não é fácil, mas eu chorei mesmo na fase de procurar trabalho, porque até pras vagas mais simples do mundo ( tipo, sei lá, atendente de supermercado) não me chamavam.. Agora com o alfaiate eu sofria, mas tinha era vontade de dar um murro nele (hahahaha) porque nossos problemas eram mais por falta de paciência dele x falta de inglês meu. Mas agora ta tudo melhor, já estou indo pra oitava semana e estamos bem ajustados já. Claro que o gênio dele continua o mesmo, mas ele já confia mais em mim e a rotina ta mais fácil. Beijo =)

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  7. Pat, que legal!

    Nossa, que experiência incrível! Tenho certeza que já valeu a pena ter se mudado para a Nova Zelândia!
    Já trabalhei com tantas pessoas grossas nessa minha vida, Deus meu! Mas se eu tiver razão, deixo claro a minha opinião, não sou boba. Com certeza em outra país as dificuldades só aumentam, mas a satisfação de ver tudo bem feito também!
    Muito mais sucesso pra vc!
    A costura muda a vida, né mesmo?
    Beijo

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    1. Sim, Andrea, segue mudando. Já mudou minha vida tantas vezes e segue o curso das mudanças.
      A relação com ele tem melhorado, mas ta longe de ser uma relação 300% legal/divertida, mas no geral, é ok.
      O lance é que eu passo todo meu tempo pisando em ovos, sabe? prestando o triplo de atenção porque se eu errar algo e tiver que refazer,o omi fica doido. E, apesar das dificuldades, o saldo é completamente positivo. Beijo ❤

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  8. Pat querida, que delicia de relato! Acho que você deveria pensar em escrever um livro. Queria te dizer o que pensava enquanto lia esse post, mas no final, parece que você leu meus pensamentos: quanto aprendizado, quanto NOVO na sua NOVA vida!!! Quanto as coisas pelas quais você passou nos últimos tempos por aqui são pequenas diante de tudo isso, você definitivamente TINHA que viver isso!!! Fico grata a vida por essa sua vivência, fico feliz por você! beijo grande

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    1. Ana, seu comentário encheu meus olhos de lágrimas. Vc esteve perto de grandes mudanças na minha vida (quando abri o ateliê, quando me desliguei dele e agora, na NZ) e é um prazer poder ler o que vc me escreve, porque sei que vem do <3.

      Sim, a vida nunca foi tão rica. E nunca foi tão bom viver isso, de verdade.
      Obrigada por estar perto, sempre,
      Pat

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  9. Minha querida e eterna rainha! Quantas vitórias e quanto crescimento! Fico muito feliz por você – apesar da dureza… Lindo capítulo de uma bela história de vida. Quem diria que costurar poderia significar tantas coisas e despertar a alma para tantas experiências – de fato e de espírito? Que você continue essa caminhada sempre e cada vez mais iluminada pelo conhecimento. Um abração carinhoso de verdade e, assim como você com esse chefe-dureza grego, minha eterna gratidão por ter aberto pra mim as portas do jardim de infância da costura. Em tempo: tem um pensamento que acho que é do Luiz Fernando Veríssimo que é mais ou menos assim: “quando você acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas” É super verdade, né?! Bjs.

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    1. Nossa Zezé, sua mensagem já era linda, mas essa frase que vc fechou deu um calor todo especial ao que vc escreveu. E eu acho que é bem por esse caminho mesmo, quando a gente acha que sabe, tudo muda. É assim que me sinto agora, trocando a casca, sabe? Aprendendo um tanto de coisas novas naquele laboratório que é a a loja do Grego.
      E nosso relacionamento tem melhorado, aos poucos, tá ficando mais fácil.
      Ele já confia no meu trabalho, muitas vezes fala: “faz do seu jeito, fica bonito” . Já é um grande avanço, ne? Beijo beijo, Pat

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  10. Pati, ha muitos anos não paro pra ler um post em um blog, há muito tempo não escrevo comentários em um blog, e tenho q te dizer q paro o meu mundo nada tranquilo pra ler aqui e ver teus vídeos.
    Costuro desde os 11 anos (tenho 31) e hj dou aula pra algumas alunas na minha casa mesmo, sempre aprendo, sempre digo a elas q não vão aprender de um dia pro outro quando choramingam seus erros ou enquanto desfazem uma costura.
    Eu to muito feliz com a tua coragem, com tua humilde aventura nesse novo mundo…. rsrs
    Com vc aprendi a dar mais atenção aos detalhes, ter mais paciência, fazer peça piloto haha!!!
    Você é demais! obrigada por compartilhar tudo isso!
    Toda a sorte do mundo pra vc! beijoooo e feliz 2016!

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    1. OI Lilian,

      Nossa, vc não sabe o quanto é legal ler um comentário como o seu. Obrigada por vir aqui e me dizer isso, de verdade =)
      Com tanta informação na internet tbm passei a selecionar bem o que leio ou assisto e ler que vc não lê quase nada mas vem aqui ler os posts é muito legal porque eu entendo o que vc diz.
      Que legal que se tornou mais detalhista na costura. Eu tbm tenho me tornado detalhista a cada dia e sei o quanto faz diferença nesse trabalho que temos, ne? E continue com as pilotos, eu não vivo sem elas ❤
      beijo e volte sempre, Pat

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  11. Nossa, que história bacana! Conforme fui lendo o seu relato, fui imaginando a alfaiataria, o alfaiate grego, as peças, rs. Cheguei por aqui hoje, comecei a ler os posts e amei. Sou novata na costura. Aprendi sozinha por um tempo com tutoriais na internet, fiz pequenas oficinas de artesanato e agora comecei um curso pra valer de costura e modelagem de roupas. Estou amando ! Meu sonho é um dia conseguir trabalhar com algo ligado a costura. Trabalho em escritório e detesto. Passo o dia pensando nos meus projetos de costura, lendo blogs e foi assim que cheguei por aqui. Desejo muita sorte pra você aí na Nova Zelândia! E se um dia voltar pro Brasil, quero ter a honra de ser sua aluna! 🙂

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    1. Oi Renata, que mensagem mais carinhosa! Se eu voltar a dar aulas no Br, te aviso,viu!
      Então, não desista do seu novo sonho de trabalhar com costura, também é o que me faz feliz (e pra ser honesta,uma das poucas coisas que presto pra fazer, risos!). Vá estudando e praticando, uma hora rola um trabalho pra vc.
      Beijo, Pat

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  12. Paty como gosto do seu jeito de falar (no youtube) e escrever! Li o post imaginando e detalhes essas cenas com o grego! Conte mais pra nós 🙂
    Achei seu canal buscando dicas para vestidos infantis, tenho me aventurado a aprendendo sozinha essa arte. Vi como vc, minha mãe costurar por muitos anos, mas ela o fazia mais por necessidade que por amor, e eu e minha irmã fomos criadas vestindo o que ela fazia para nós. Mesmo formada em uma área completamente diferente(Administração) me vejo louca numa loja de tecidos e fico tão feliz de ter uma peça pronta. Hoje tenho um bebê de 6m e entre uma fralda e outra tento fazer uma coisinha.
    Não deixe de atualizar o blog.
    Bjos

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