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Um vestido de noiva

[ este texto foi escrito há cerca de um mês, na minha 3ª semana de trabalho com o alfaiate]

Na última sexta, quando estava quase saindo, o alfaiate me falou:

-Segunda às 12:00 temos horário com uma moça que quer consertar um vestido de noiva. Você consegue fazer, não é?

Tudo muito seriamente, num tom quase de cobrança.

Dei um sorriso, disse que sim e comecei a rezar pra minha nossa senhora do vestido de festa. Passei o final de semana toda tensa com isso, em alguns momentos, seriamente preocupada. Não sabia que tipo de conserto apareceria, nunca mexi com um vestido de noiva e sei que qualquer erro pode deixar o alfaiate muito irritado, coisa que evito, já que ele – às vezes – beira o estúpido.

Passei na biblioteca e peguei um livro sobre vestido de noiva/alta costura. Não suficiente, fiz um curso de 10 horas (em dois dias, pense no cansaço) onde acompanhei toda a produção de um vestido de noiva, do molde ao acabamento, passando pelo corte, forros e volumes. Fiquei até cansada de tanto assistir, mas foi bom, revi umas coisas que estavam esquecidas e aprendi um tanto de outras coisas novas. Não sanou meu medinho mas já me deu um parecer de que, de uma forma ou de outra, é apenas um vestido, não um bicho de 7 cabeças.
Meu maior medo era aparecer a menina com um vestido da avó querendo mudá-lo inteiro para usá-lo em algumas semanas, imagine a trabalheira!.

Na segunda feira fui trabalhar meio preocupada. Cheguei 10m antes e fiquei esperando a noiva no fundo da loja, de pé. O silêncio tomava conta do espaço: ninguém entrava, os passarinhos da rua não cantavam e minha respiração era ofegante como a de um noivo, parado, esperando a noiva entrar com o vestido branco e a marcha nupcial.

E nada.

Apareceram outros clientes, vieram alguns trabalhos (e uma calça muito bem feita, depois vou postá-la aqui) e eu lá, entre a régua e as medidas. De repente, entra um casal. A mulher portava um vestido quase de festa, solicitando ajustes. Eu olhei e pensei: uai, não era de noiva? Será que entendi errado?

A mulher queria mudar o vestido por completo (pra ser sincera, nem precisava mudar nada) e o alfaiate alfinetava o vestido todo, feliz em pegar um trabalho caro, dando sugestão de looks pro casamento que estavam mais pra moda de 1994 do que pra 2015 e eu só ouvindo, na minha, fazendo meu trabalho quietinha.

De repente entra uma mocinha, toda sorridente, dizendo ser a noiva. Eu, já calma, pedi que aguardasse um pouco, já que o alfaiate me disse que ele iria fazer as marcações no vestido. Enquanto ele finalizava o atendimento com a mulher do vestido anterior, pediu que a noivinha colocasse o vestido e assim fomos eu e ela para o provador.
Ela era uma fofa, super simpática e com um astral lá em cima. Me contou que comprou o vestido num site e não conseguia trocá-lo por ter vindo de outro país.  Me contou ainda que terá duas recepções e perguntou se seria possível cortar o vestido depois, pra usá-lo curto. E a gente num tricô bom, falando baixinho enquanto ela vestia o vestido pesado.
O alfaiate chega, pede licença, corta o assunto (sugerindo educadamente que eu continuasse com o meu trabalho – as calças – no fundo da loja) e começa a medir o vestido já no corpo da moça.
Eu me despeço da noivinha com os olhos, sento na máquina e sigo meu trabalho silencioso.

Daqui a pouco, vejo o homem estressadíssimo, batendo o pé, quase xingando
Quando eu olho, vejo que ele alfinetou o dedo e sujou o vestido de noiva com sangue.

PAUSA DRÁMATICA

.

.

.

1noi

Preciso nem dizer que eu tive que terminar o atendimento, né? A noivinha continuou tranquila e super astral. Ele prometeu enviar o vestido à lavanderia e devolvê-lo em perfeito estado, com os ajustes já feitos.

Quando vi o homem super nervoso e o vestido sujo, pensei: Mas porque diabos ele fez isso? Ele não sacou que o top do vestido é mega duro?

Depois, expliquei pro alfaiate que, em tecidos grossos assim, o melhor é medir, marcar as medidas no papel e alinhavar cada parte que pede alteração, tudo isso por conta das camadas de entretela e estruturas internas. Além do risco dele se furar, ele pode furar a moça também, ja que o alfinete não vai entrar com facilidade numa estrutura tão rígida como a de um tomara que caia. Quase óbvio, não? Não li isso em nenhum livro ou vídeo, apenas pensei, quando peguei o vestido na mão e a menina me mostrou aonde estava largo.

/ / /

E assim os dias vão passando.
Ele me ensinando aos montes mas também percebendo que eu não nasci ontem.

risos,
Patricia

5 comentários em “Um vestido de noiva”

    1. HAHAAHAH Tatiana, quando eu chegar na fase atual (hoje, final de novembro) o humor dele terá melhorado.. Nossa relação tem melhorado, não boa ainda, mas mais fácil rs

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  1. Pat, sério, além de adorar os videos, seus relatos são muito bons. Me identifico demais com as coisas que você tem falado. Parece eu com meu primeiro chefe. No seu caso faria igual (livro+curso+preocupação no fds), deus sabe o quanto de sono perdi com entrevistas e pautas, hahaha. Espero que ele tenha humildade pra reconhecer que aprende com você também!!! ❤

    E a aflição desse vestido manchado. Acho que no final você e ele foram abençoados com uma noiva que não é bridezilla! 😉

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    1. Oi Paulinha,

      Menina, há tempos eu não ficava tão tensa. Teve momentos no sábado que cheguei à ficar seriamente preocupada em perder o emprego, caso o vestido fosse “de outro mundo”, sabe? No fim, o trabalho foi até fácil.
      Acho que ele nunca vai dizer que aprende nada comigo não – hahaha – mas quem sabe, né? O gênio do homem é difícil, além de ele ter a auto-estima lá no teto, sabe? Agora menos, mas ele vive me dizendo: “tenho 40 anos de experiência, ahm!?! “, tipo passando por cima. MAs eu ouço, absorvo o que acho legal absorver e sigo em frente.

      E o vestido voltou limpinho da lavanderia, ainda bem 🙂 A menina não merecia nada menor que isso, sério. Ela era super fofa 🙂

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