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O teste

No dia em que fiz a entrevista com o alfaiate, em dado momento ele começou a me fazer mil perguntas técnicas sobre costura. Queria saber o que eu sabia ou não fazer.

– Sabe fazer isso? -sim
– E isso? – também
– E esse outro? -diabéisso em inglês? ahm tá, sei.

Na última pergunta, respondi não. Ele questionou se eu sabia reduzir punhos de ternos e, como nunca fiz, fui honesta e disse a verdade, complementando com um “mas eu posso aprender”. No fim da entrevista ele perguntou se eu toparia trabalhar uns dias com ele para ele ver como é meu trabalho e me ensinar algumas coisas. E assim começou minha relação de trabalho com a alfaiataria, os ajustes e alguns restauros em roupas.

Esses “uns dias” tornaram-se uma semana de aprendizados e vários pequenos testes.
Alguns dias com muito trabalho e outros mais tranquilos e eu sempre tentando entender o jeito que aquele homem sistemático trabalha para fazer o meu melhor. Apesar dos perrengues, a semana foi positiva.

Na sexta feira, antes da pausa do almoço, ele me chamou para conversar. Disse que gostou do meu trabalho, comentou do funcionamento da loja, me passou outras novas informações, pediu para eu não usar jeans (aqui) e no fim, me convidou para trabalhar com ele. Saí para almoçar sentindo um misto de euforia e receio: eu tinha um trabalho.

Quando voltei do almoço, mal pisei na loja e ele – o alfaiate – sorrindo, puxou o terno de um cliente e falou: –Você disse que ia estudar isso, hã? Então faça.

“Estudar isso” era sobre alterar um terno sozinha. Minha espinha gelou.

Nunca antes eu alterara a manga e o abotoamento de uma peça dessas. Apesar de saber que modelagem é uma geometria lógica, sabia que aquilo era um teste que poderia me prejudicar.
Com calma, peguei a peça, desmanchei o forro, desvirei o danado e comecei o teste final.
A cada minuto que passava eu me sentia como uma criança no meio de um quebra-cabeças gigante tom-sobre-tom querendo resolver a equação. Teve momentos em que eu alinhavava, sentia que estava perto do resultado, desvirava tudo e via um defeito. Ó céus!

Eu poderia desistir pois não era um ajuste real, ele pegou uma peça aleatória e me deu pra tentar fazer, sem cortar ou fazer qualquer mudança definitiva na peça. Mas olhar praquele homem e dizer que não estava conseguindo era dar à ele o direito de falar algo que eu não queria ouvir naquela hora. Seria indigesto, então fui até o fim.

amang

Apesar do míni pânico, consegui finalizar e reencaixar o forro corretamente. Foram duas horas e três tentativas e o resultado não ficou 100% perfeito, mas o alfaiate gostou do que eu fiz. Disse para eu ir devagar (take your time) pois, segundo ele, eu daria conta.

Passei o resto do dia me perguntando porque diabos eu não comprei um terno velho num brechó e tentei fazer isso em casa. Teria aliviado parte do stress e, mesmo se os modelos não fossem idênticos, teria exercitado alguma coisa. Mas enfim, vivendo e aprendendo.

Hoje, completando a oitava semana de trabalho, domino grande parte dos trabalhos masculinos e faço todos os femininos que recebemos. Os abotoamentos são quase raros mas o longo aprendizado continua,

Diariamente.

Até logo,
Patrícia

3 comentários em “O teste”

  1. Pat, tá uma delicia acompanhar sua evolução e seu dia a dia do outro lado do mundo. Se vc que sabe tanto está aprendendo um tantão de coisas, imagina suas alunas.

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    1. Carol vc não imagina a saudade que eu tenho de dar aulas, estava pensando nisso agorinha mesmo, inclusive.
      Mas tudo no seu tempo. E esse tempo aqui está sendo de muito, mas muito aprendizado…
      Beijo grande,
      Pat

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