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o vendedor de tecidos neozelandês

Este é David Cathro. Ele é o o vendedor (e dono/sócio) da loja de tecidos e aviamentos que sempre vou às pressas comprar algo de costura. E toda vez me deparo com este homem bem humorado e suas camisas incríveis. Não acha incrível?

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Ok, à primeira vista pode parecer ~escalafobético~ aceitar essa camisa mutcho lhouca como algo incrível, mas veja se esse caminho é legal:

1) Uma vez ele vestia uma outra peça onde cada recorte da camisa encaixava perfeitamente na estampa. Era a primeira vez que eu via algo como aquilo e comentei o quão perfeita estava e ele falou: aaahmm, a costureira é muito boa! E riu. A costureira em si acredito ser a esposa dele e também dona da loja.

2) Ele exercita vestir o que acha divertido, sem se atentar “as tendências” atuais. É tão fora da caixa andar na contra-mão, principalmente em períodos onde o certo e o errado estão tão fortes e a opinião alheia é sempre tão julgadora que OLHA, que homem corajoso.

Confesso que eu não consigo.

Minhas roupas são bem normais e comuns. Claro que estão ligadas à nossa personalidade, mas também ao entorno e ao tempo em que vivemos. É mais ou menos como seguir o fluxo da boiada nas roupas, assuma.

3) Já parou pra pensar o quanto somos condicionados à gostar da moda atual? A gente acha a roupa dos anos 80 antigas e ultrapassadas, acha a moda dos anos 90 isso e dos 2000 aquilo. Provavelmente em 2030 vamos olhar as fotos de 2015 e achar que fomos cafonas ou nos vestíamos “demasiadamente iguais aos outros”. Mas hoje nos sentimos bem, assim como nos sentíamos adequadas em 1997.

2New York, New York
SENTE o encaixe da estampa. A gente nem nota o bolso, a parte dos abotoamentos etc.
Perfeita, eu diria.

4) O estilo dele é meio cênico, não? Vejo mais ou menos como aquelas garotas que se vestem 24/7 com aquele estilo “gothic lolitta” ou os punks com as roupas surradas. Nessas horas confirmo o quanto é normativo usar a calça de sempre e aquela camisa “certa que fica boa”.

Lembrei de uma vez que li em algum canto que a estilista Vivienne Westwood se negou a dar dinheiro à sua neta, quando a mesma pediu uma grana pra comprar um jeans. Ela disse não, completando que “jeans era roupa de gente conformada” hahahaha.

Uma das diferenças que mais senti aqui na NZ (em relação à brasileira) é o quanto a gente se arruma para estar bonita. A gente nem percebe, é automático tomar banho, botar uma roupa legal, manter o cabelo da melhor forma que a gente gosta (ou escova, ou cachos bem definidos, ou uma cor incrível de tinta etc), aquela maquiagem “leve de bonita” – pele corrigida, batom bonito e muito rímel – e pra ajudar, um brinco que evidencie nosso rosto. Fazemos as unhas de forma limpa ou sexy (renda ou um vermelho matador), usamos sapatos que geralmente combinam (ou pelo menos ornam) com a nossa roupa e por aí vai. Todo mundo passa a roupa e quase todo mundo mantém a sobrancelha em ordem.

Isso praticamente não existe aqui.

Não, não estou criticando o estilo das brasileiras, aliás acho maravilhoso o nosso asseio com a aparência (principalmente quando não nos leva à pirações) mas, a maior diferença com a NZ é que aqui, no geral, o povo tem menos preocupação em estar bonito e talvez esteja mais preocupado em se divertir com a roupa. Ou mesmo mais preocupado em não se preocupar com nada mesmo e pronto. E eu não estou dizendo que isso é mais cool ou mais humano, é apenas uma forma diferente de viver.

Não é a toa que aqui o povo não tem cabelo bonito (os salões vivem vazios, juro!*), o povo anda de roupa amassada e o consumo em brechós é super valorizado. Procuram-se mais uma peça única do que uma peça nova ou bela.

Talvez eu não consiga explicar isso de forma concisa mas aprendo com os neozelandeses e com os brasileiros. Não consigo me desvencilhar do meu estilo “arrumadinha” mas já soltei algumas amarras (uma delas é não mais se preocupar se os cachos estão perfeitamente em ordem). Com isso passei a admirar pessoas como o vendedor acima, que se diverte com o que veste. O resultado é um olhar menos julgador e mais amplo, mas é um exercício diário.

Quem vem junto?

Patricia

4 comentários em “o vendedor de tecidos neozelandês”

  1. Eu acho isso o máximo, de não ter que se arrumar até para ir na padaria! Mas aqui, se eu for na padaria do jeito que eu quiser, pensando só no pão que eu vou comprar, vou encarar olhares de julgamento do bairro todo – não que eu me muito com isso, mas vou ter que lidar. As pessoas se preocupam com coisas muito pequenas…

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    1. Super te entendo, Paula. Eu sempre morei na ZL de SP e um dia me mudei pra Pinheiros e fui lá na padaria com meu Havaianas de sempre.
      Me senti um ET na sua sem sapato fechado, achei super estranho. Com o tempo me habituei e virei uma “pessoa calçada” no mercado e na padaria tbm, mas aqui na NZ é tudo muito relax, inclusive o povo anda sem sapato na rua. Qualquer hora conto disso hehehe. Beijo

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  2. Pat, no Japão sentia o contrário: me arrumava muito mais lá do que aqui, a ponto de as pessoas perguntarem se eu estava bem quando saía sem maquiagem.
    E lá tem essa cultura de brechó tbm, mas as pessoas se preocupam muito com marcas, pelo que pude perceber…
    De qq maneira, é interessante ver um outro jeito de levar a vida, né?

    Beijos,
    Cris

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    1. OI Cris!

      Sabe que estudei com algumas japonesas que viviam arrumadinhas, mas em ordem, não super maquiadooonas como as blogueiras brasileiras (haahaha), mas a que eu mais tinha contato (Emi) não estava nem aí pra hora do Brasil, ela não se arrumava nada rs. Mas a bichinha é naturalmente linda, uma pele que ó, que sonho!

      Sim, muitos jeitos de levar a vida 🙂 Bj

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