Blog, textos

A paixão é um delírio que picota nosso estômago.

Tiago me ligou.

Coisa rara em tempos de áudios de WhatsApp, mas ele precisava que eu ouvisse, naquele instante, que a paixão havia arranhado sua pele.
A paixão tinha nome e ramal: Fernanda* do 212.

Tiago me disse que gostou dela desde o dia em que ela foi apresentada na empresa:
-Pessoal, essa aqui é Fernanda, vai fazer parte da equipe do financeiro.
Do setor comercial, ele clicou.
Por conta da troca de emails de trabalho se aproximaram rapidamente e, aos poucos, se envolveram.

Os 22 minutos via Skype foram gastos para descrever o que aconteceu. Tiago falou, falou, falou repetidamente sobre ela e sobre os encontros, perfeitamente detalhados aos meus ouvidos desde roupas ao ambiente. E foram cinco: o happy hour, a casa dele, o chopp no bar, o cinema no final de semana, a festa da firma.
Segundo os relatos, ela era uma mulher bem legal. Geralmente bem humorada, divertida e inteligente, tinha um cabelo farto e lábios finos.
Ria das piadas e apertava sua pele. Gostava de transar.

Tiago não deixou dúvidas de que os encontros eram ótimos. E ele, claro, estava apaixonado. Sua voz tinha misto de alegria e agonia, típico de quem se envolve sem medir barrancos e oceanos.

Tiago é um dos caras mais legais que a vida me apresentou: culto, riso fácil, educado; nos conhecemos no final da faculdade que eu detestei fazer. E, no meio dos desgostos e livros, Tiago dividia a Coca Cola e a internet da biblioteca comigo.
Foi ele que esteve num dos filmes mais marcantes que vi, naquele cinema velho e fedido no meio da Consolação.
Foi ele que fiz ouvir Coltrane em silêncio repetidas vezes até encontrar tal instrumento musical. E ele me obedecia.
Tiago cozinha, prepara uma comida desajeitada mas que nos mata a fome e depois ainda lava a única panela que suja para fazer duas comidas diferentes. É meu gênio do molho branco com ervas.

E Fernanda vinha no tempero.
O pessoal do escritório já sabia e ele não disfarçava,
De tempos em tempos repetia o nome dela entre todas as suas ações: o relatório de compras, a reunião na central e o bandejão da firma.
Fernanda lá estava, brilhando na tela do computador ou na tampa da panela.
A questão que ele não enxergava é que ele estava sendo cozido nesse lance.

Porque, para ele, o problema é que o ramal pertencia a outra filial. Fora da cidade matriz, Fernanda trabalhava noutro endereço.
Ou seja, a moça não estava além do marcado na agenda.
A dureza desses encontros programados entre o setor de compras e a logística o matava. Fernanda só estava enquanto confirmada via Google Calendar, embora pontualmente presente, e ficava somente até o alarme avisar que o tempo dos dois havia acabado. –Aviso quando chegar, dizia ela ao pegar o Uber.

O carro saia e Tiago ficava. Despedaçado.
Ele a queria no domingo de manhã, no caldo de cana com limão na feira, na dúvida entre brócolis ou couve flor.

Eu ouço Tiago contar suas histórias – em meio a lágrimas e risos – e volto a acreditar que sempre há algo novo a viver. Nesse mar de êxitos e respirações engasgadas posso acolher seu estômago picotado e remendado pela alegria de uma paixão. Mas entre nós não há ovos para pisar, somos amigos.

O ponto, pra mim, é que Fernanda escolheu não estar.
Fernanda prefere viver Tiago como o relatório que entregou ao chefe no fechamento do mês passado: milimetricamente calculado com segurança a projeção de gastos para os próximos seis meses.
Pra ser honesta, isso não é um problema, já que ela deixou isso claro. Eu reconheço o problema no fato de que meu amigo não consegue ouvir o recado dado. Não consegue processar como é que ela o quer assim, em doses econômicas de afeto enquanto ele tem tanto para dar.

Tiago me liga atravessando oceanos porque precisa escancarar sua falta e sua dor.
Ele chora ao telefone sem saber me explicar se é de alegria ou raiva, de querer ou de despedida. Se vai embora de vez ou se foge dessa sala semi vazia em que está.

E eu, aqui, plácida nessa casa silenciosa preciso dizer -mais uma vez- querido amigo, que não é aí que o amor está.

A paixão é um delírio onde a gente se debate, mesmo querendo ver alí, outro alguém. É um desenfreio que assalta a gente da gente mesmo e ficamos rolando dentro de um liquidificador, estarrecidos entre nossas emoções, todas cortadas pela lâmina fina que é viver. Muitas vezes muito saborosas, mas com grandes chances da gente se perder de nós mesmos. Vulneráveis.

E eu só sentei para escrever nossa conversa para que você possa reler e relembrar do que disse: logo mais você volta pro prumo, amigo. Tenho certeza que você retomará a respiração, depois todo o resto vem junto, no seu tempo.

Porque você merece viver um amor além de metas e sulfites A4, além da schedule.
É hora de abandonar essas trocas precárias que não passam do seu corpo e se manter atento aonde possa haver sintonia, porque 50% da energia boa é sua.

Então, quando voltar para casa, me ligue. Me ligue quantas vezes quiser porque estou aqui com você.

Somos vaca profana, Tiago. Respeitamos nossas lágrimas, não esqueça!

Com amor,
Patricia

 

obs1. a escrita é minha mas o caso, real.
obs2. Fernanda é, na verdade, Fernando.
obs3. Deixa seu comentário, vai! Muito triste um blog sem comentários =)

40 comentários em “A paixão é um delírio que picota nosso estômago.”

  1. Sempre te acompanho no instagram, primeira vez que leio seu blog. Escrita incrível, poderia ficar lendo por horas. Mandando boas energias pro Thiago ❤

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    1. Tem mais posts/escritas aqui, Ines. CLica na tag “textos” que vc os acessa 🙂
      Mandarei sim. Tiago está bem, essa ligação foi há uns dias e hoje mesmo ele me deu um feedback tão bom que certeza que tá legal =)

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  2. Patrícia vc é muito talentosa, parabéns por suas produções (literárias e costurísticas), vc sabe nos envolver muito bem 💜😍

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  3. Aaah, mais uma vez você me tocando! O texto foi pra outra pessoa mas me acertou em cheio, Tiago merece um amor maior e eu também, obrigada. ❤

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  4. Essas sutilezas do sentir, traduzidas em texto, tecido, tacitura… você trama tudo, costura as partes e faz um todo tão perfeito, tão arte e coração… como é bom saber que você está aí, longe e perto dos sentimentos da gente…

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  5. Eita, quem nunca foi Tiago… E quem nunca foi Fernandx. Dia nasce, dia morre, “logo mais você volta pro prumo, amigo”. É reconfortante ler isso. Obrigada, Pat. ❤️

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  6. Eu desconfiei que a Fernanda era o Fernando ao notar os traços de sensibilidade descritos, e tive quase certeza quando ele chorou. Difícil hetero chorar por amor não correspondido.
    Amei o texto, Pati.
    Que sorte tem a Fernanda por ter você. Ops!
    Bjs

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  7. Vc é tão bacana! Costura tecidos e histórias que a gente vai acompanhando com gosto, cada parte e no final, sempre sai com vontade de um pouquinho mais! Adorei!

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  8. Pat, isso aqui é ouro.
    Como vc escreve bem, mujer.
    Tiago, nós estamos com você (e com o Fernando também). Tem tudo isso dendagente.

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  9. Tiago desnudou sua alma para Fernando que vive uma vida agendada…. sinceramente todos no vivemos isso, não é errado e só escolhas do viver… um viver longo cheio de medos e falhas com felicidades ao infinito se enxergarmos que nos somos tão imperfeitos e incríveis ..maravilhosamente humanos.. adorei o texto sincero, claro e lindo…. beijo Paty

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  10. Querida te hj eu não tinha encontrado tempo e carinho para vir ao seu blog,me arrependo profundamente! Maravilhosa sua escrita.
    Obrigada.

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  11. Finalmente consegui acessar o blog, não sei que estava havendo, enfim…to aki e o queixo caiu de vez, ainda escreve!
    Lindo, bom saber que Tiago já está bem e que tem vc como amiga. Beijo, tenho um blog pra dissecar. 😉

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  12. Patrícia, se eu estiver errada por favor me corrija, mas seu amigo não seria um Sad Boy? Eu entendo mto o lado dele, mas vi mto do perfil dele parecido com aquele moço do filme “500 dias com ela”, em que o cara era um sad boy – e até ontem eu não havia refletido até escutar o podcast “Imagina Juntas” da semana passada sobre isso… dps me conta tá? Bjos.

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    1. HAHAAHHHAHA tbm ouvi! fiquei pensando nisso, sabia?
      ó, nunca foi, viu?! Mas esse rolo mexeu com ele de um jeito diferente, ele ficou BEM mal mesmo, nunca o vi assim antes.
      Eu acho que foi o momento, não sei. Ele namorava um outro cara e agia bem diferente, never sad before.
      Mas.. não vou perder a piada, vou zoá-lo em breve hahahah ❤

      Curtido por 1 pessoa

      1. Tadinhooooo não faça isso… ou então faça… amigos são pra essas coisas tb ;P
        Mas que bom q vc é um ombro pra ele, penso que as vezes temos momentos de “sad boy/girl”, e ter um amigo pra nos apoiar é topzera
        Bjinho

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  13. Caramba, eu juro que tenho um amigo que passou pela mesma coisa!!! Ele já superou, mas eu me sinto culpadíssima porque ele passou por isso com três rapazes e eu não soube como ajudar!!! A sua crônica ajuda não só quem sofreu, mas os amigos que apoiam também!!!

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    1. Giulia, é bem dificil mesmo. Eu acho que ajudar é delicado porque nem sempre vamos falar o que o outro quer ouvir, ne? Neste caso, melhor apenas ouvir e dar um abraço apertado… aas pessoas só precisam serem ouvidas mesmo. BEijo!

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