Blog, textos

Spring 69

Moro no apartamento térreo de um prédio de quatro andares.

Amsterdam Central é formada basicamente por edifícios construídos entre 1600 e 1800 com escadas bizarras e janelas enormes. A gente pode ver todo mundo vivendo, um Big Brother da vida real sem grandes tabus.

E faz calor.
Há algumas semanas o sol fica num jogo de some e aparece e, desde que voltou a brilhar, a cidade se transformou. A gente anda pelas ruas e o que se vê é um desfile de bicicletas e corpos à mostra. Stroopwafel ontmoet fiets, diriam os holandeses.

Neste apartamento térreo que moro há um quintal pequenino que mais parece um jardim: cerca de madeira, muitas plantas e uma mesa. E, sem pensar duas vezes, coloquei a máquina de costura no quintal para aproveitar os dias claros entre primavera e verão. O privilégio do silêncio desse bairro me permite costurar ouvindo os aviões voando, passarinhos cantando e o vento mexendo as plantas.
Mas hoje teve um barulho extra: alguém transando no apartamento acima do meu.

Eu já estava ouvindo ruídos e gemidos mas achei que fosse coisa da minha cabeça – essa memória é um trem indomável que às vezes viaja para onde não deveria estar – mas não era, o som vinha do andar de cima embalado por risadas coordenadas.
Desligo a máquina de costura e observo.

Eles riem e a cama acompanha, fico me perguntando quem são.

Do lado de dentro da casa, na mesa onde costumo estar posso ver quase todas as pessoas que entram e saem do prédio. A escada de acesso passa por cima do meu banheiro e eu ouço todos os passos de quem sobe e desce animado.

Animados. Eles estão se pegando, parece bom.

Queria ser um dos passarinhos que sobrevoa o prédio só para pousar na janela por um instante e ser uma voyer que apenas atravessa o dia.
A curiosidade me impede de trabalhar: Quem são eles? Qual a cor de suas peles? Quem arranha as costas, quem beija a nuca?
Quem aperta mais as coxas um do outro?

O som é animado. Gemidos e risadas, uma coisa incontrolável.

Volto a ligar a máquina, preciso me concentrar.
Este tecido grosso pede minha atenção mas o sobe e desce da agulha me joga pro andar de cima.
Coloco uma música. Rita Lee canta: meu bem você me dá agua na boca, vestindo fantasias, tirando a roupa.
Será que eles vão gostar? Tão sexy, acredito que sim.
Mas eles não devem entender português, penso.

Abro o Spotify, aperto o shuffle. Mick Jagger canta Anybody seen my baby rebolando naquelas calças justas que só Jesus.
Rebolando. Fico pensando que nesse calor eles devem estar suando em sincronia e desafiando as leis de Newton. Que respiram o mesmo ar,  que as roupas estão pelo chão. Que o cabelo dela está bagunçado e que ele a olha nos olhos, profundamente.

Melhor trocar a música.
Será Ariana? Meu sonho é ser uma das meninas daquele clipe, divago. Mas levando em conta que em 2018 quase ninguém tem o empenho de deixar o outro “got me walkin’ side to side” pode ser bom.
Fico com vontade de colocar Baco, afinal, não há música mais afrodisíaca que essa. Se eles entendessem português iam sacar que tem tudo a ver: – Vai, senta firme!

Quem morde quem? Que cheiro que eles possuem? Quem está por cima?
Espero que seja ela, penso arrepiada. Minha temperatura subiu.
Fica aí, moça, é tão bom. Para não, rapaz!*

Tiro o Baco, volto pra máquina.
Aperto bem o pedal pro som da costura me puxar pro foco.
Porque eu escolhi este tecido? Quem prende a perna de quem? Onde se conheceram?
Aplicativos? Tinder, Happn? Ou trabalham juntos numa cafeteria da Dam Square e estava impossível se conter naquele balcão de madeira servindo capuccino por 6 horas seguidas?

Meu estômago ronca, meu corpo é um registro de fomes catalogadas de A a Z.
Entro em casa e só tem banana e vinho. Não consigo descascar essa banana por razões óbvias e o vinho vai me embebedar muito rápido.
Que bom que tem alguém transando nesse prédio num fim de Maio ensolarado, penso enquanto mastigo a banana e cogito besteiras.

Continuo com fome.
Volto pra máquina.

Eles continuam saciando seus desejos.
Não parece ser um lanchinho qualquer, é um banquete servido em cima da cama, na cômoda, na mesa. O vento que balança a cortina deles é o mesmo que passeia pela minha pele e me arrepia os pelos.

Está insuportável acompanhar. Me dou conta de que escolher músicas é querer fazer trilha pra foda deles. É participar de sem ser convidada.
Não quero. Quero.

Desligo o Spotify, desligo a máquina, guardo o tecido.
Entro pra dentro de casa e fecho as cortinas. Viro a chave protegida pela tecnologia dos vidros anti ruídos.

Tranco a porta, mas na verdade queria mesmo é jogar um bilhetinho pela janela:
– A lua está cheia, me chamem. Sou do 42H.

ilustra: @reifus

 

Patricia Cardoso – Maio 2018

 


 

Deixa um comentário, vai! Muito triste um blog sem comentários hehehe.

Tem músicas delicinhas  pra indicar pra minha playlist transante? Deixa escrito aí 

Para ler mais, clique aqui 

#ficção

* Em um grupo de conversas sobre sexualidade feminina na qual participo, grande parte das mulheres reclamam que, coisa chata que numa foda é o fato de que ela termina porque o cara gozou. Apenas parem!
Parem, descansem e recomecem. Há muito o que viver.

44 comentários em “Spring 69”

  1. Menina, acho q antes de voyeurismo é uma empatia/inveja né? kkkk… acho mto legal saber q existem seres transantes nesse mundo com falta de amor…
    e que grupo sobre sexualidade é esse? interessei, posso participar? como manda currículo? 🙂
    Sobre sexualidade e afins indico o canal do youtube da Cátia Damasceno, ela é uma fisioterapeuta especializada em uroginecologia, tem quase 2 milhões de inscritos e fala sobre sexualidade/sensualidade, acho legal de ouvir.
    bjo

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  2. Primeiro: não sabia que você escreve tão bem! É um talento esta moça!

    Segundo: quando mudei ai, cheguei no Dia da Rainha. E, incrivelmente, estava um calor danado. Aqueles barcos passando pelo canal naquele dia em que se pode tudo! Muita cerveja rolando gratuitamente, aquelas pessoas celebrado.

    De repente, fui apagar a luz, em frente tinha uma obra vazia, afinal, era feriado nacional!

    E não é que debaixo do holofote da rua, dentro da obra, tinha um casal de jovens que mandou ver? Foi bem estranho, quente pacas, sexy. Não dava para ver os detalhes mas era hot, hot, hot!

    E gente passando do lado de fora sem saber o que rolava dentro. E eu vendo tudo.

    Daí chamei meu marido, a gente viu um pouco e depois foi fazer o nosso, é deixar o casal no deles! Me lembro que foi uma das melhores! Hehehe

    Você me trouxe mais saudades ainda daí! Kkkkk beijos

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  3. Tô aqui cada vez mais passada com o talento da minha amiga, que de bela observadora sagaz que sempre foi, agora é escritora que nos faz viver/querer viver/curtir junto esses momentos dignos de serem degustados e compartilhados. Você é pura sensibilidade, Pat!

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  4. Pati (desculpa a intimidade, mas já me considero íntima de tanto tanto que vejo e me divirto com seus stories 😂) .Amei seu texto ,deveria escrever um livro de crônicas inclusive .
    Adoro a sutileza e intensidade com que você nos proporciona um teletransporte por alguns minutos

    Bjs

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    1. Ah que delícia ler isso. Obrigada pelo feedback, eu escrevo há um tempo mas nunca finalizo ou publico os textos. SAber que te transportou pra mim é uma noção de que tô caminhando. Obrigada.
      O livro vai vir uma hora sim 🙂

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  5. Eu tomaria o vinho, comeria a banana, reconheceria a maravilhosa autosuficiência hedonística de minha mão e passaria o bilhetinho. Nessa ordem. 🙂

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  6. Então descobri que a menina da costura escreve tão bem quanto fala!!! Sim, amo seus videos. Muito legal esse prédio e seus vizinhos… muito bom música. Não ando em dias com listinhas de música, mas gosto demais. Bjs

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  7. Mas não é possível que além de ser sensacional na fala e na costura, é também na escrita! Estou apaixonada! A propósito, sou do número 41 no finzinho da rua, HAHAHAHA ❤ (a vários km de distância, infelizmente). Beijos, estou adorando!

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  8. Pat querida! Eu procurando seu texto sobre o retiro e acho isto aqui.
    Eu estou adorando te ler! Você escreve muito bem. Que história boa!

    Besitos e saudade da Pat que eu conheci e desta do blog. Você é genial!

    O texto do retiro é inspirador (vou achar ele) 😉❤️

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  9. Eu estava procurando informações pra complementar a minha aula de costura e encontrei uma crônica que despertou a minha vontade de escrever!!!!! Gente, eu passaria o dia inteirinho lendo textos iguais a esse!!!!!!

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    1. OMG SOCORRO!
      Vc aqui, não creio hahaha {que emoção!}
      Menina, vou escrever mais sim, até estou desenvolvendo outro, mas tá mto pesado e explícito, não sei se vou ter coragem de publicar aqui 😇
      Mas mando pra vc ler, rs. BEijo!

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  10. Quanto talento Pat!! Vc escreve tão bem quanto costura!! Se é que da pra se comparar… o texto parece início de filme daqueles que o ator só narra e a gente vê as cenas passando rs

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  11. Há um tempo atrás li um texto que dizia que ver a felicidade alheia em momentos de sexo demonstra nossa felicidade com o sexo… eu já fiquei muito fula de ter vizinha sendo “invadida” com ganas nas altas madrugadas da vida… hj em dia, acho o máximo! go girl!!! isso aí!!!!

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