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Jaquetinha vinho de linho – o processo

A parada foi mais ou menos a seguinte: estava andando por Amsterdam e vi uma jaquetinha fuefa numa loja. Entrei, provei, salivei e saí.
Saí mas fiquei com a bichinha na cabeça… Percebi que o modelo era simples (quase lembrando uma camisa) mas mais curtinha e feita no linho. Como eu tenho um corte de linho aqui AND não costumo comprar roupas, corri pro papel pra traçar uma modelagem e ver no que ia dar, até porque não tenho nenhuma peça de roupa assim, pra usar em noites quentes/levemente frias, sabe?

E o legal de algumas peças é que as faço no calor da emoção: fico tão empolgada que largo tudo o que estou fazendo, limpo a mesa, estico o papel e começo.

A modelagem iniciou pela base da blusa justa, que é a que já mostrei varias vezes no Youtube e que fiz há muitos anos. Tem tanta gente me pedindo base de blusa que preciso reestudá-la pra fazer e ensinar, porque quando uma base está bem feita, vc não precisa ficar refazendo. E é isso o que aconteceu com a minha: tá tão certinha que nem me preocupo mais, toco qualquer modelagem com ela sem medo.

A manga que tracei é a mesmíssima que ensinei AQUI. Adoro este traçado, apesar de ter algumas contas, ele é construído de forma limpa e as mangas ficam muito boas. Nunca uma manga minha deu errado.
{beijo, Esmod (essa manga é de lá, da escola francesa) ♥️}

Aqui, a modelagem completa: parte de fora, forro, bolso, manga e golas:

Em seguida cortei a tela.
Cês tão carecas de saber que nunca pulo essa parte, afinal é ela que me dá noção se a modelagem está indo bem e se a roupa me serve. É provando a tela que corrijo quaisquer diferenças no traçado e corto meu tecido com segurança.
E ó, nem faço telas completas:

Veja na foto abaixo: eu só fiz uma das mangas porque a idéia é ver se a mesma está alinhada com o corpo da blusa e se o comprimento está ok. Neste caso, não tem porque fazer as duas, uma já vai me dar a resposta.
Mas neste molde a gola me incomodou… 😯

A gola:

Quem iniciou nas modelagens sabe que não há um jeito único pra fazer qualquer coisa que seja. É como fazer um bolo de chocolate, há mil receitas. O mesmo se repete para traçados e técnicas de modelagem plana.

Daí que tracei uma gola simples. A bichinha ficou bonitinha e encaixou direitinho na jaqueta, mas estava me incomodando porque parecia MUITO uma gola pra camisa, sabe? Justinha, certinha demais.
Por um instante achei que eu havia feito algo errado, então cortei uma segunda gola no algodão cru, costurei e provei. Mesmo resultado. A golinha estava fofa, mas eu não queria uma gola fofa, queria uma gola correta pro projeto: uma jaqueta.

Larguei lá. Então continuei fazendo a jaqueta, costurando o forro, os bolsos e no final, voltei pro traçado. Decidi testar uma gola com pé e aí a coisa começou a andar: encaixou bem e ficou bacana pro porte da peça.
Na foto abaixo você consegue ver o traçado e a gola no algodão cru. Eu ainda fiz um segundo ajuste, reduzindo a frente porque achei que ficou pontuda demais (tem as marcações de lápis na gola) e reduzindo o bico, a idéia é que desse uma proporção mais adequada pra gola toda. Deu certo, mas se vc olhar o molde, vai ficar com a impressão que ele está torta, mas na peça encaixou bonitinho (veja aqui).

Depois vou ensinar essa gola no canal, prometo =)

Detalhes:

Por dentro coloquei dois bolsos internos pra guardar documentos e celular. Assim posso andar sem bolsa por aí. O bolso que fiz foi este, ó.

Por fora fiz dois bolsos grandes que me deixaram meio indecisa entre: gostei ou não?
A questão é que achei a tampa do bolso grande demais quando vi a jaqueta pronta, mas decidi não desmanchar e refazer a tampa por um motivo: tenho gostado muito de modelagens mais esquisitas, formas um pouco mais largas e peças menos coladas ao corpo. Manter essa “tampona” aí é só o primeiro passo pras roupas que ando achando legais, ou seja, um pouco longe do que tenho vestido nos últimos anos. (vou colocar qq txt aqui pra matar essa viúva,rs)

Na lateral, uma cordinha com ilhoses .
Mas inventei de fazer as cordinhas e não gostei nada nada.
Ontem fui à feira e comprei um cadarço e troquei. A cor não é 100% mas ainda assim ficou mais legal do que na foto abaixo.

Materiais utilizados:

Linho que comprei há mais de 2 anos nessa feira aqui, na Nova Zelândia (abri o vídeo pra ver quanto paguei e OMG detesto os vídeos antigos hahaahaha. Aquele cabelão, socorro!).

Pro forro usei acetato para forro de ternos, comprado no Brás ano passado. Achei esse corte num cestão e peguei sem pensar muito, afinal, é uma cor que costuro bastante, caberia SIM em algum projeto =)

Na gola usei entretela de malha colante preta e os botões são de pressão de costura manual, que compro em armarinhos de costura (já vi pelo Brás-SP). Só que acho que vou retirar os botões porque fiz a modelagem pensando em casa de botão + botões comuns, daí olho pra ela e acho que está faltando algo, sabe?

Sobre o tempo, eu não fiz uma conta exata, mas acho que entre começar o traçado e terminar a peça, levei uns 5 dias para fazer tudo. 5 dias trabalhando pelo menos 8 horas (eu fiz em mais dias espaçados, mas fiz essa conta pra dar uma idéia). Se eu fizesse uma segunda faria mais rápido, claro, mas entre traçar, testar, costurar, descosturar e etc, o tempo correu.

E pra fechar, mais algumas dessas fotos lindas que não sei lidar.

As fotos bonitas foram feitas pelo @reifus e as normais são minhas mesmo, risos.

Eu adorei o resultado final. Tenho certeza que essa jaquetinha vai bater muita perna por aí e que ela ficou bem feita também. Mas o que mais gosto mesmo é a satisfação quando termino uma modelagem e a peça fica bem do jeito que eu desenhei em 2D. Ver que o molde encaixou, que a percepção do modelo e as medidas aplicadas bateram não tem preço.

Também fiquei bem satisfeita com o forro. Os bolsos internos ficaram mais ou menos bons (confesso!) mas olhando como um todo, acho que o forro teria passado pelo crivo do alfaiate que trabalhei.
Agora me diga, o que vc achou? Tem alguma dúvida? Deixe seu comentário, vai! Muito triste um blog sem comentários 😅

Boas costuras e boas modelagens,
Pat

 

Blog, textos

o equilíbrio e a auto estima

1- Uma vez postei não lembro o que no stories do Instagram falando sobre auto estima e um tanto de gente me respondeu com “magina, não pense assim, você é tão bonita” e eu fiquei pensando no tanto que devo ter me expressado de forma pobre porque não estava falando de aparência, mas sim de auto estima como um todo.

Porque minha concepção de auto estima não é sobre se sentir bonita, mas sobre um olhar mais completo de quem somos e como caminhamos pela vida. É uma questão de postura conosco.

E falar em beleza é pouco porque ela muda (muda a moda das belezas e muda a nossa aparência no decorrer dos anos).

O que eu quero dizer é sobre autonomia.

2- Ainda neste ponto, eu nunca fui a menina mais bonita da sala nem do grupo (ninguém foi, convenhamos). Fui aquela típica adolescente sem graça vendo mil defeitos no espelho mas ainda assim, sem grandes problemas.

Quando eu tinha uns 27, 28 anos fiz um acordo comigo de chegar aos 30 me sentindo em paz com minha aparência e este acordo não tinha nada relacionado a fazer tratamentos estéticos invasivos ou cirurgias, mas em me aceitar como eu era como um todo, incluindo abandonar de vez velhos complexos com o corpo.

Deu certo. Aos 30, 31 eu estava tão em paz com o que via no espelho que isso deixou de ser assunto.

Ainda carrego medalhas dessa conquista, mas em 2018 gosto mais de mim por dentro do que por fora. Não que eu ache que meu exterior piorou consideravelmente, mas porque eu ampliei tanto quem sou que não trocaria minha cabeça de hoje pela aparência de 5 anos atrás.

O que eu quero dizer é sobre estar construindo uma relação saudável e sustentável consigo. Que “estar fabulosa” seja mais sobre brilho no olho e satisfação com as ações do que estar bonita / ser mulher enfeite.

3- Semanas atrás um cd me fez sentir emoções há tempos não cutucadas. O negócio foi tão denso que, à cada faixa, a dor no estômago aumentava porque redigerir aquele mal estar velho e-tudo-o-que-era-novo-e-remexia-junto não estava nos planos pré play.

Ironicamente eu não conseguia tirar o cd do repeat.
Conscientemente eu não queria tirar o cd do repeat porque acessar aquela lacuna era sim me chicotear, mas também olhar para a dor e procurar uma cura para ela.

Acho que o ouvi por umas duas ou três semanas. Nesse meio tempo caí, senti um profundo desespero, chorei mais do que poderia ser possível e muitos dias depois, recuperei. A dor virou um luto. Depois, cinzas.

Quando parei o cd, pude voltar pra casa em paz (veja bem, a casa sou eu).

Ainda tinha comigo as cinzas para encarar, mas notei que eu havia conquistado uma elasticidade pouco antes percebida. Reconheci um caminho neutro e consciente para fazer a trilha de volta e ganhei total noção de que não sou negligente com meu bem estar emocional.

Acolher a dor e procurar a cura é fazer cartografia na pele.

Auto estima é sobre estar e se posicionar no mundo. É construir relações sustentáveis distantes das relações utilitárias e que nesses espaços possamos ser quem somos, de forma completa.
Forma completa significa respirar sem esforço e amar sem sufoco.

É uma atitude madura manter-se centro da própria vida, diariamente. Tirando do outro a expectativa ~de que nos complete~, afinal, reconhecemos que já somos, assim o que vem de encontro é encaixe.
E nesses encaixes não vamos aceitar nem oferecer migalhas, pois não devemos permanecer em um espaço onde nos desperdicem como ser humano.
É como li dia desses, “não se negociar por baixo”.
E também não se despedaçar em vão.

É reconhecer que somos também uma compilação de abismos, mas sabendo que cada um oferece possibilidade de auto conhecimento e construção de autonomia de verdade. É o exercício de se equilibrar.

Relacionar a auto estima apenas à nossa aparência é não ampliar a discussão.

Podemos levar nossas belezas para o mundo, mas que ela esteja também nos atos, no olhar, no fazer, no ouvir, no tocar, no abraço, na entrega. A aparência do espelho é pouco perto do que somos enquanto totalidade.

Patricia Cardoso

 

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obs1. O post tornou-se uma carta para mim mesma. Pra quando eu não estiver legal, lembrar de como sou boa quando estou bem. E que assim deve ser após cada declive. E repete.

obs2. pode deixar comentários =)  O blog tá em obras mas ta funcionando 🙂