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Blog, costura

A blusa que deu certo mas faltou peito, risos

Comprei este tecido no Brás-SP há uns meses porque amei o toque e a cor dele. É uma mousseline muito macia e não transparente, então me conquistou na hora e arrematei um metro.

Daí, meses depois resolvi fazer um top transpassado com uma faixa na cintura que desse um laço + manga godê. ✂️
Fiz aquele processo que cês já conhecem: modelagem plana partindo da minha base, tela para prova, ajustes do molde e enfim, corte e costura.

Tudo muito lindo no processo, inclusive a tela me coube direitinho:
Muitas fotos:

{a modelagem, tela para prova, peças sendo cortada, mesa de costura, viés na gola
e parte da barra lenço que fiz na manga godê. Um amor!}

O erro

Pois bem, a tela no algodão cru coube direitinho mas a peça final não. Que triste!

Proporcionalmente tudo serviu (costas, ombros, desenho do decote etc) mas se eu tivesse uns dois números a mais de busto teria ficado bom. No caso, ficou largo e eu tenho que desmanchar a peça inteira pra ajustar a frente dela. Mas cadê coragem?

Não é a primeira vez que isso me acontece e, embora já tenha perdido algumas peças que costurei por ñ terem servido, dessa vez fiquei MUITO desanimada a desmanchar e consertar porque o tecido é bem delicado e estava dando sinais de desgaste 😦 Digo isso porque tive que retirar uma das mangas e esta começou a esfarelar, mesmo usando agulha 9.

Já tive roupas que não me couberam e fiz o ajuste ou passei pra frente, mas esta está no meu armário pra ver se eu tomo coragem para fazer o ajuste ou se descolo uma amiga peituda desfilar com ela por aí.

{ alinhavando alguma parte da blusa e a peça quase pronta no manequim }

Eu acho a blusa ficou larga com o tecido final porque ele é muito mais fino e leve do que o algodão cru que eu tinha aqui em casa. Talvez se seu tivesse testado num poliéster xexelento teria uma visualização mais adequada da peça no corpo. Agora já era: não tenho mais o tecido pra re-cortar outra parte da frente e nem vou colocar 400 mls de silicone, risos.

E você, alguma costura que deu errado na peça final e ficou com preguiça de consertar?
Conta pra mim!

Beijo,
Pat

 

obs. Gentes costureiras, estou indo ao Brasil para mais uma série de aulas.
Quem quer participar?
Logo mais compartilho a agenda aqui e no Youtube, estou terminando o conteúdo e já já mostro pra vocês. Coisas legais a caminho ♥️

Pat

Blog, textos

Spring 69

Moro no apartamento térreo de um prédio de quatro andares.

Amsterdam Central é formada basicamente por edifícios construídos entre 1600 e 1800 com escadas bizarras e janelas enormes. A gente pode ver todo mundo vivendo, um Big Brother da vida real sem grandes tabus.

E faz calor.
Há algumas semanas o sol fica num jogo de some e aparece e, desde que voltou a brilhar, a cidade se transformou. A gente anda pelas ruas e o que se vê é um desfile de bicicletas e corpos à mostra. Stroopwafel ontmoet fiets, diriam os holandeses.

Neste apartamento térreo que moro há um quintal pequenino que mais parece um jardim: cerca de madeira, muitas plantas e uma mesa. E, sem pensar duas vezes, coloquei a máquina de costura no quintal para aproveitar os dias claros entre primavera e verão. O privilégio do silêncio desse bairro me permite costurar ouvindo os aviões voando, passarinhos cantando e o vento mexendo as plantas.
Mas hoje teve um barulho extra: alguém transando no apartamento acima do meu.

Eu já estava ouvindo ruídos e gemidos mas achei que fosse coisa da minha cabeça – essa memória é um trem indomável que às vezes viaja para onde não deveria estar – mas não era, o som vinha do andar de cima embalado por risadas coordenadas.
Desligo a máquina de costura e observo.

Eles riem e a cama acompanha, fico me perguntando quem são.

Do lado de dentro da casa, na mesa onde costumo estar posso ver quase todas as pessoas que entram e saem do prédio. A escada de acesso passa por cima do meu banheiro e eu ouço todos os passos de quem sobe e desce animado.

Animados. Eles estão se pegando, parece bom.

Queria ser um dos passarinhos que sobrevoa o prédio só para pousar na janela por um instante e ser uma voyer que apenas atravessa o dia.
A curiosidade me impede de trabalhar: Quem são eles? Qual a cor de suas peles? Quem arranha as costas, quem beija a nuca?
Quem aperta mais as coxas um do outro?

O som é animado. Gemidos e risadas, uma coisa incontrolável.

Volto a ligar a máquina, preciso me concentrar.
Este tecido grosso pede minha atenção mas o sobe e desce da agulha me joga pro andar de cima.
Coloco uma música. Rita Lee canta: meu bem você me dá agua na boca, vestindo fantasias, tirando a roupa.
Será que eles vão gostar? Tão sexy, acredito que sim.
Mas eles não devem entender português, penso.

Abro o Spotify, aperto o shuffle. Mick Jagger canta Anybody seen my baby rebolando naquelas calças justas que só Jesus.
Rebolando. Fico pensando que nesse calor eles devem estar suando em sincronia e desafiando as leis de Newton. Que respiram o mesmo ar,  que as roupas estão pelo chão. Que o cabelo dela está bagunçado e que ele a olha nos olhos, profundamente.

Melhor trocar a música.
Será Ariana? Meu sonho é ser uma das meninas daquele clipe, divago. Mas levando em conta que em 2018 quase ninguém tem o empenho de deixar o outro “got me walkin’ side to side” pode ser bom.
Fico com vontade de colocar Baco, afinal, não há música mais afrodisíaca que essa. Se eles entendessem português iam sacar que tem tudo a ver: – Vai, senta firme!

Quem morde quem? Que cheiro que eles possuem? Quem está por cima?
Espero que seja ela, penso arrepiada. Minha temperatura subiu.
Fica aí, moça, é tão bom. Para não, rapaz!*

Tiro o Baco, volto pra máquina.
Aperto bem o pedal pro som da costura me puxar pro foco.
Porque eu escolhi este tecido? Quem prende a perna de quem? Onde se conheceram?
Aplicativos? Tinder, Happn? Ou trabalham juntos numa cafeteria da Dam Square e estava impossível se conter naquele balcão de madeira servindo capuccino por 6 horas seguidas?

Meu estômago ronca, meu corpo é um registro de fomes catalogadas de A a Z.
Entro em casa e só tem banana e vinho. Não consigo descascar essa banana por razões óbvias e o vinho vai me embebedar muito rápido.
Que bom que tem alguém transando nesse prédio num fim de Maio ensolarado, penso enquanto mastigo a banana e cogito besteiras.

Continuo com fome.
Volto pra máquina.

Eles continuam saciando seus desejos.
Não parece ser um lanchinho qualquer, é um banquete servido em cima da cama, na cômoda, na mesa. O vento que balança a cortina deles é o mesmo que passeia pela minha pele e me arrepia os pelos.

Está insuportável acompanhar. Me dou conta de que escolher músicas é querer fazer trilha pra foda deles. É participar de sem ser convidada.
Não quero. Quero.

Desligo o Spotify, desligo a máquina, guardo o tecido.
Entro pra dentro de casa e fecho as cortinas. Viro a chave protegida pela tecnologia dos vidros anti ruídos.

Tranco a porta, mas na verdade queria mesmo é jogar um bilhetinho pela janela:
– A lua está cheia, me chamem. Sou do 42H.

ilustra: @reifus

 

Patricia Cardoso – Maio 2018

 


 

Deixa um comentário, vai! Muito triste um blog sem comentários hehehe.

Tem músicas delicinhas  pra indicar pra minha playlist transante? Deixa escrito aí 

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#ficção

* Em um grupo de conversas sobre sexualidade feminina na qual participo, grande parte das mulheres reclamam que, coisa chata que numa foda é o fato de que ela termina porque o cara gozou. Apenas parem!
Parem, descansem e recomecem. Há muito o que viver.