Primeira semana de quarentena do Covid-19

Hoje é sábado – 21.03.2020  eu eu saí de casa.

Essa semana foi emocionalmente caótica e eu tenho certeza que essa é uma onda sentimental que estamos passando em grupo.

Falo com amigas e familiares e todo mundo se identifica quando eu digo que passo 60% do tempo em desespero e 40% com alguma paz.

 

Quando as notícias do Coronavírus estavam aqui, instaladas nesta capital e as instruções de isolamento foram se iniciando, comecei a entrar em desespero porque trabalho com aulas de costura e, se ninguém puder vir às aulas, não haverá trabalho. Meu primeiro desejo foi de manter a agenda, mas logo as alunas começaram a cancelar suas presenças e eu, a concordar com a medida de segurança.
Isso foi entre domingo e segunda feira, 16 e 17 de Março.

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Na terça-feira acordei derrubada: chorei, senti várias dores no corpo e a cabeça girava pensando nas contas que pago mensalmente. Fiquei com medo de pegar outra gripe pois a que passei no carnaval ainda não está 100% recuperada, pensei na minha mãe velhinha e em todo o caos que podemos enfrentar. As notícias do jornal são sempre e assustadoras e os índices, reveladores. Basta olhar os gráficos do avanço da doença nos outros países e ter um pouquinho e lucidez pra constatar que isso não é brincadeira. Pelo instagram temos dois grupos: o das pessoas preocupadas e o grupo que está fazendo festinhas dentro de casa, indo à praia, recheando bares. A ficha ainda não caiu.

Eu sou do grupo das apavoradas. Meu medo é maior do que essa marginal Tietê e eu tenho que assumir que essa preocupação toda me travou e chorar foi o que deu pra fazer. No final do dia uma aluna me pediu uma ajuda via WhatsApp e levantar da cama para tirar a dúvida dela foi o que me ajudou a melhorar o ânimo. Foi bom sair da nóia da preocupação e concentrar em outra coisa.

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Na quarta feira, a única coisa que entrava nos meus emails e mensagens eram notícias de cancelamento de tudo pois não há saúde que dê conta: aulas, cursos, projetos no Sesc, eventos e pedidos de quarentena (pra quem pode fazer). Eu acordei bem e segui com essa rotina de faxina que tenho feito (sem álcool gel, vai água, sabão e cloro) e hoje fez sol. Olhar o pequeno horizonte pela janela me dá alguma tranqüilidade momentânea. Parece que é hora de reaprender a respirar.

Minha casa é composta de leveza e silêncio, moro sozinha mas penso nas pessoas que me relaciono e não sei se as verei novamente. Contabilizo minhas irmãs e sobrinhos enfermeiros ( são 6 pessoas dentro de hospitais) e o pânico vai rolando porque, apesar de tantos pedidos de reclusão, há muita gente achando que é ok estar em reuniões de grupos. Me chamaram de histérica e exagerada, mas não há excesso quando falamos em cuidados diante de uma pandemia.

Hoje acordei mal, bem mal.
Tem horas que é difícil alcançar os 40% de tranquilidade que citei no inicio do texto. A gente ri de um monte de memes e áudios de gente fazendo faxina mas também chora pela condição governamental que nosso país está.
Nescios.

Falo com amigas que tem pequenos negócios e não sabem como manter a folha de pagamento dos funcionários pelos próximos meses e o medo de quebrar. Tá foda pra todo mundo. Já estamos quebrados, em cacos por dentro porque o número de mortos só aumenta e na Itália já não tem onde enterrar.
Estamos nos acumulando.

Quinta feira e o bairro foi se silenciando. Ainda ouço sons de crianças brincando nos parquinhos dos prédios vizinhos e há toda noite um panelaço contra o atual presidente da república. Acordei muito cedo pois precisava fazer um exame médico e aproveitei para passar no mercado que às 7 am já havia filas nos caixas e todo mundo com uma cara de desespero. Pelos corredores, muitas placas pedindo para que as pessoas não comprem tudo e, em alguns produtos, limite de unidade por pessoas.

O resultado do exame só seria entregue em 12 horas e para não fritar na ansiedade do Covid + exame, foquei em voz alta no trabalho. Repetia pra mim o que estava fazendo e até onde precisava ir e consegui dar conta da tarefa.

Analisei o quanto essa história de lavar as mãos e o sumiço do álcool gel tá fazendo com que a gente melhore os hábitos de limpeza mas, ao mesmo tempo me peguei preocupada com pessoas que tem TOC. Pessoas que já vivem com essas questões na sua rotina e podem estar pirando neste momento de fúria sanitária.

Durante a tarde, conversando com uma moça, fui chamada de histérica e louca porque “minha preocupação é demais” disse ela. Assumo que tô preferindo estar no grupo dos preocupados do que dos negacionistas já que acredito na ciência não no terraplanismo, risos. Terminei o dia me perguntando como fica o amor nesses dias de isolamento e no fim, as 10 estações de metrô, um banho de álcool gel e uma porção de lisoform não faz mal à ninguém;

Só nos resta é amar e sermos amadas.

É sexta feira. Já ouço casos de pessoas próximas com Coronavirus e parece que aquela notícia do jornal saiu da TV e se instalou nos corredores. Tão poucas semanas e nossa vida já mudou por inteiro.

Nos trancamos dentro de casa e pesquisamos coisas pra fazer.
Há tantas ofertas que se torna exaustivo o volume de ebooks grátis e aulas on demand de frente ao algo novo que devemos também limpar. Corremos.

Muita gente lota os supermercados e faz o estoque completo de coisas para os próximos meses. Eu vejo minha dispensa e me causa um arrepio pensar que logo logo tudo pode faltar. Lembro de uma das cenas finais de “O pianista” onde Adrien Brody encontra aquela lata de conservas e parece que amanhã todos nós seremos ele. Este medo se mistura com a raiva ver que as empresas realmente milionárias não dispensam seus funcionários e que os bancos não destinam seu lucros ao sistema de saúde.

O fim
do mundo
está

Costurei até umas máscaras de tecido com minhas sobras de tricoline.

Termino o dia tentando seguir uma série de alongamentos de ballet. A minha inscrição no curso de dança há de ser reativada e, a cada postura seguida, vou pensando em tanta gente: na gata da minha mãe, na minha própria mãe que está na praia (!) , na amiga que caiu na escada rolante, no povo doido comprando remédio sem garantias de funcionamento, nos pais do meu ex marido que não falam mais comigo, nas noites com pizza de alcachofra e aula do casaco de lã. Penso em tanto esforço que a gente faz pra comprar coisas materiais e agora elas não fazem o menor sentido: esse monte de sapatos dentro do armário e nenhuma geleia de laranja, nenhum afago, nenhuma notícia boa.

Hoje o sol também sumiu.

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Sábado – 21.03.2020  eu eu saí de casa.

Fui à feira e o bairro está cada dia mais deserto: não há lojas abertas mas vejo pequenas filas do lado de fora dos mercadinhos. Uma sensação de vazio percorre as ruas em meio a tanta gente presa dentro de casa e, ao mesmo tempo parece que nada mudou: ainda tem gente fazendo cooper e andando de bike como se houvesse amanhã.

Entrei no banco pra sacar algum dinheiro e o limite é de R$250,00. Dá medo de andar na feira mas preciso comprar comida pra semana que virá e parece que o preço do grão de bico aumentou mesmo: 14,90 por um pacote feito à granel.

O rapaz que vende alho tinha uma tristeza na voz e o número de mortes na Italia bate os 800 por dia. A gente senta pra ouvir o biólogo Atila Iamarino  (que ontem fez uma live tão completa de informações relevantes) que eu fico a pensar que é ele que vai fazer este país se resguardar e lutar para não morrermos.

Falo com minha amiga via vídeo do WhatsApp. Parece que foi a melhor coisa que me aconteceu na semana porque a gente existe no silêncio mas também nas trocas e nas relações. A gente ri das lembranças da vida e se solidariza com o a lacuna da outra.

No fim é isso que importa: o carinho, a presença e sanidade mental.

Domingo e sua beleza melancólica.

Existe uma limpeza no ar e fico olhando pro horizonte como se de repente, saísse o filtro da poluição.

O amarelo do sol está tão transparente entre os prédios e parece que tudo está um pouco mais límpido, de longe e de perto. O silêncio do bairro é a única coisa boa que parecemos atravessar e, quando eu lavo o pano de chão da faxina da casa, me pergunto se uma hora essa água vai nos faltar.

Fico preocupada com minha mãe, um medo de não vê-la novamente e a memória de outras pessoas passam por aqui: quando nos mudamos pra Alemanha e moramos numa mini Kitnet, da vez que meu cabelo cresceu tanto que deu pra cobrir os seios e fazer uma foto no final da tarde, de tantas coisas que costurei e me causaram uma alegria imensa, dos filhos da Nana Gadelha que são lindos e já nasceram tios, da minha sobrinha que entrou há pouco num curso de teatro, na vida que salta em cada pulo da Gal, de tanta gente trabalhando assustadas nos hospitais, das pessoas se esforçando internet à fora pra cuidar da saúde mental de quem precisar, da Ju que tá no puerpério, dos artistas fazendo shows nas varandas e janelas, na minha irmã que sente uma gripe forte peito. É tempo de desaguar.

Passei a tarde chorando acompanhada no abraço que é ninho e um mar de amor. ♥️

Pro almoço teve arroz, brócolis, abóbora e suco de maracujá com manjericão e gengibre. É uma fartura e isso mostra que estamos apenas no início essa crise. Quero registrar este domingo de cozinha perfumada e cheia de vida.

Porque eu acho que dessa vez, todo mundo vai morrer.
De forma real ou simbólica vamos atravessar este luto de algum jeito: infectados pelo Coronavírus; por dor ao ver quem amamos, morrer;  de raiva do governo ou de um outro amargor.

Intacto ninguém passará.

Se cuidem e
Boa semana pra vocês,
Patricia

obs.. uma coisa bonita pra vocês:

 

obs. escreve aí nos comentários como foi sua semana, vamos nos aproximar!

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