Blog, costura, textos

Um vestido, mil caminhos

Já havia estudado modelagem há uns anos no Senai, em seguida Senac e tempo depois, com uma professora particular. Também já estudei um pouco de moulage e, conversando com uma moça no Instagram, expliquei pra ela que considero a moulage mais fácil de começar pois a moulage é muito mais orgânica, em pouco tempo você começa a ver a peça pronta*. Na modelagem não, a gente risca, risca e risca e nem sempre sabe se aquilo vai vestir bem, ou se a proposta no traçado vai acomodar bem o tecido no corpo. É um desafio.

Por conta disso, ano passado voltei a estudar modelagem porque o que eu sabia não era suficiente. Nunca é. E desde então tem sido uma experiência tão boa e tão diferente dos estudos anteriores pois jamais tive resultados tão legais e isso tem tornado o processo animador: agora os moldes encaixam direitinho, uma benção!

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Uma das últimas peças que tracei foi este vestido acima.
Ele não tem muito segredo – é até parecido com o que fiz pra minha sogra (aqui) e depois costurei um pra mim (aqui) – a diferença é que fiz este sob medida e, desde o traçado inicial, a prova da tela e o piloto ficaram bem bons.
Como sempre meus moldes recebem tantos ajustes  (neste caso, o decote da frente que eu queria bem alto e as costas em V) que o molde fica assim, todo sujo de traços e recortes (acima), mas acabo achando tão bonito que nem passo à limpo. É a história dele, o processo.

2 3O tecido:

O tecido tem uma historinha boa: Um dia recebi um emailmkt da loja de tecidos mostrando as novidades e vi essa estampa. Achei a danada linda e corri na loja para ver o tecido de perto (essa loja fica pertinho da minha casa, um perigo!) e quando cheguei lá, eles não tinham essa estampa, só a irmã dele (este aqui, azul marinho florido). Fiquei meio desanimada mas, mesmo amando o azul, deixei para comprá-lo outro dia.

Daí que voltei pra casa e fiquei pensando loucamente no tecido azul marinho por alguns dias. Queria voltar lá e comprá-lo de qualquer jeito. Dias depois recebi outra mensagem da loja dizendo que eles fariam uma promoção para clientes inscritos (oiêêêê!) com 40% de desconto na semana seguinte. Era a minha chance!

Cheguei lá no primeiro dia bem cedo e, – vc viu o tecido azul? Não? Nem eu!

Alguém correu e comprou o rolo todo na semana anterior.
Fiquei arrasada, mas tão murcha e desolada – hahaha –  que a vendedora (que me conhece de outros carnavais) falou que ia dar um jeito e procurar o tecido nas outras lojas da rede pela Nova Zelândia.

Assim sendo aproveitei e falei: moça, se vc vai procurar, veja se encontra esse aqui também? Mostrando a foto do tecido deste vestido pelo celular.

Em três dias eu estava com os dois tecidos em casa e com o bolso pelado. Mas feliz!

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Costura e acabamentos:

A costura não teve nenhum grande segredo: overloque em todas as partes, costura reta, zíper invisível nas costas e o forro por dois motivos: 1) porque sim; 2) o tecido é levinho (voil de algodão), então é meio transparente, ne?

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No traçado decidi não fazer a saia muito rodada porque eu não queria que ficasse fofo demais, afinal uma estampa floral + saia rodada = look boa moça, risos.

Aqui o vestido no corpo, no finalzinho do verão:

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Na outra foto dá pra ver um pouco das costas do vestido, que é um decote em V acabando acima da linha da lingerie. O forro é cerca de 4 cm menor que o vestido.

Gostei muito dessa peça, muito. O vestido ficou muito certinho no corpo e, como nunca antes, ele coube em mim, não eu nele. Já virou um queridinho no armário mas agora tenho que esperar o próximo verão pra usá-lo.

Beijo,
Pat

 

OBS1: * O que falei lá em cima sobre a moulage: Não é que eu ache todo o processo da moulage mais simples, pelo contrário, acho inclusive bem desafiadora também, mas iniciar os estudos em moulage dá uma visão ampla da construção da roupa 3D mais rapidamente do que fazendo modelagem planificada. Acho o processo inicial mais rápido e mais motivador.
OBS2a história desse vestido continua em breve, num próximo post =)
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Meus primeiros dias na alfaiataria

Meu primeiro dia de trabalho com o alfaiate foi um dia tão extra-ordinário que saí de lá com dor de cabeça. Parecia que eu havia passado o dia entre um universo paralelo e um campo de guerra. Foram tantas coisas que aconteceram ao mesmo tempo que agora, 7 semanas depois, só lembro dos tapas na cara.

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A parada é que depois de 10 anos costurando, depois de alguns cursos, de estudo, de pesquisa, de mais de 3,5 anos dando aula, depois de tanta coisa feita, a idéia que eu tinha é que eu costurava… hummmmmm, com um mínimo de decência, vamos assim dizer.

Sempre soube que não sei de tudo em costura e que a estrada é longa, mas ver o alfaiate riscando uma calça para fazer uma simples barra pode ser descrita como cena chocante.

A forma que ele risca, o jeito que ele mede, a técnica que ele trabalha, tudo, absolutamente tudo é diferente do que eu vi nesses 32 anos. Claro que nem tudo é pelo fato dele ser alfaiate, aquilo é dele, é o jeito dele fazer, mas OLHA, sério, foi um choque.

Era tão inteligente e eficaz, ele fez todo o trabalho tão rápido e ficou tão bom que foi um tapa na cara. Nem uma barra que preste eu devo ter feito nessa vida antes disso.

O bom desse primeiro dia é que tivemos muito trabalho para fazer. Talvez tenha sido um dos dias (até hoje) com mais movimento na loja e foi como um furação: um tanto de trabalho e tudo, absolutamente tudo feito de uma forma nova, inteligente e certeira. A cada hora que passava eu me tocava que eu não sei é de nada e que há muito o que aprender.

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Uma das coisas mais difíceis da primeira semana foi a dificuldade com a língua.
Entenda: ele não me conhecia, eu não sabia explicar tudo à ele e eu nunca havia trabalhado numa alfaiataria. Não é fácil provar que é capaz falando apenas “I can, I know, Ok” e seguir o dia trabalhando em silêncio por incapacidade de comunicação.
Ser estrangeiro às vezes é ser mudo.

Até hoje ele fala: mas seu inglês é bom, você só precisa deixar de ser tímida! E eu respiro fundo e sorrio porque minha timidez acaba no 8* minuto, mas meu vocabulário é restrito.

Grande parte do trabalho que temos são reformas e ajustes e, sim, apesar de eu saber fazer parte das coisas coisas que ele faz, percebi que ele não sentia a mínima confiança em mim e desconfiava dos resultados em 90% do tempo. Não foi uma semana fácil.

Outra dificuldade foi o gênio do homem: um grego perfeccionista e sem paciência (ele me disse isso quando me admitiu, que depois desses anos não tinha paciência pra ensinar nada à ninguém) me explica uma vez e fim. Presto/prestei atenção em tudo com muito cuidado pois nos primeiros dias percebi que tenho fazer tudo exatamente igual ao que ele faz.

Fazer tudo do jeito dele não é sobre chegar no mesmo resultado, é fazer TUDO do jeito dele: pegar a tesoura do mesmo jeito, usar as mesmas ferramentas, fazer o mesmo processo. Não é fácil colocar sua forma de trabalhar no bolso e repetir o jeito dele pra evitar qualquer desgaste. Foi difícil, mas aprendi depois de algumas ranhuras.

Mesmo me sentindo super insegura, eu aproveitava cada minuto para aprender. No meu segundo dia de trabalho ele abriu um casaco para fazer um ajuste e eu quase tive um treco. Passei os últimos meses estudando sobre a construção dessa peça e, mesmo tendo feito 3 (essa, essa  essa x dois ), foi tudo na base do achismo e da leitura. Quando ele retirou o forro meu coração bateu forte (sou besta? hahaha): tudo o que eu havia visto no livro estava ali, na minha frente. Lembro até hoje o nome do dono da peça – Teira – um cliente antigo.

O alfaiate explicava como deveria ser feito, alterava as medidas com precisão e me mostrava por A+B que tudo tem que ficar do mesmo jeito que antes. Ajuste bom é aquele que fica imperceptível e veste como se fosse feito sob medida.

Às vezes eu parava e pensava: meu, como é que eu dava aula sem saber disso tudo???

Sim, eu sempre fui honesta com minhas alunas, sempre falei que não sabia tudo e que ensinava o que sabia, mas OLHA, hoje olho pra trás e penso no tamanho da inocência de ter tido uma escola com nome de rainha sem antes ter tomado um tapa na cara de um alfaiate com uma simples barra quase insignificante. A vida é uma escola mesmo.

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No decorrer dos dias (ainda na primeira semana) ele sacou que eu trabalhava direito: me elogiava toda vez que fazia algo tão bom quanto o dele e me agradecia ao final do dia, sempre pedindo para que eu voltasse no dia seguinte para mais um dia de teste/aprendizado.

Era um misto de sensações tão loucas que hora eu queria:
chorar – quando ele vê algo que não gosta, navega entre a grosseria e a estupidez;
agradecer por aprender
sorrir de alívio por fazer direito.

Só sei que as primeiras semanas foram como jogar o corpo numa fogueira, todos os dias.

Só consegui comemorar meu emprego e me sentir um pouco mais tranquila um mês depois de ter começado. Hoje as coisas estão mais fáceis: me adaptei ao jeito dele, não levo nenhuma indelicadeza pra casa, atendo os clientes com alguma facilidade e já recebi diversos elogios de mulheres com os ajustes em roupas femininas (coisa que ele abomina e odeia fazer). De Zara à noivas, tudo fica na minha mão.

Ele ainda me cobra a agilidade que ele trabalha, mas percebeu que meu trabalho artesanal /manual chega à resultados superiores aos dele – e ele reconhece. Pequenas vitórias diárias.

Enfim, eu realmente precisaria vir à Nova Zelândia pra aprender tudo o que estou aprendendo, pra trabalhar menos e produzir mais, pra tornar meus estudos mais interessantes, pra viver o novo. A vida que vivo hoje não cabia no formato de vida que eu vivia antes.

A mudança se torna completa quando ela não repete as vivências.
E apesar da saudade e dos tropeços, nunca estive tão agradecida.

 

com amor,
Patricia Cardoso

obs1. Ainda não dominando o inglês, mas já fazendo barras iguais às do alfaiate com 40 anos de experiência hahaha.
obs2. Post sobre procurar emprego AQUI e o final de um ano sabático AQUI.
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