Blog, textos

Museus de arte: riquezas e silenciamentos.

Duas coisas:

1.

Há dois dias fui visitar a cidade Den Haag aqui na Holanda.

Voltei encantada com o Museu “Mauritshuis” [a casa de Maurício de Nassau] e postei nos stories, como faço frequentemente. Como sempre, recebi um montante de respostas de pessoas agradecendo ao compartilhamento do passeio e tecendo comentários à algumas telas em específico, sobre a habilidade do artista e da beleza do quadro em si.

Mas, enquanto rolava na cama antes de dormir fiquei re-assistindo meus stories e pensando na riqueza que é o Mauritshuis.

Há muito tempo me interesso por arte e adoro ver pinturas e o talento de algumas pessoas para essas representações: povos, natureza, sociedades, animais e roupas reproduzidos em telas no correr do tempo. É sempre um prazer poder andar por salões imensos recobertos de quadros que sempre podem nos ensinar algo ou mesmo fazerem o tico e o teco, pensarem.

Mas há uma sensação estranha que continua em mim e se repete depois que o passeio a um museu acaba: o de assalto.

Ontem, enquanto pesquisava dados históricos sobre a casa de Mauricio de Nassau, vi que o primeiro formato do museu foi montado em sua maioria com ítens brasileiros. Nisso me veio à tona aquela velha questão: riquezas de uma minoria baseada na exploração de um povo.

O formato atual do museu não é como já foi: em 1704 sofreu um incêndio e perdeu praticamente tudo o que tinha. Com o passar dos anos, o governo holandês reconstruiu o prédio e passou a adquirir obras para refazer a coleção. E, todo o acervo de ítens “exóticos” brasileiro havia sido oferecido anteriormente por Maurício em situações diplomáticas ou seja, não foram queimadas no tal incêndio.

Ainda assim, o que fez essas sociedades para serem tão ricas? Quantos povos não foram explorados durante tantos anos para que países (em sua maioria, pequenos) se tornassem potências riquíssimas que conseguem se manter assim no decorrer de tantas décadas/séculos?

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É meio comum eu receber mensagens de pessoas falando que nossos museus no Br são deprimentes e abandonados.

Concordo em partes. Tenho notado uma valorização nos museus particulares e um cuidado ao montarem um novo museu (ex. Museu da Língua Portuguesa e Cais do Sertão), mas alguns encontram-se numa situação de chorar.
Ano passado estive na Fundação Gilberto Freyre em Recife e fiquei mexida por alguns dias: um lugar tão especial mas que VAI CAIR por pura falta de cuidado e assistência.

Outro caso que vejo descaso: o Museu do Ipiranga tem um acervo tão pequeno (comparado com suas possibilidades) que fico me perguntando: cadê as coisas que deveriam estar aqui? Resposta simples: a maioria das coisas que poderiam estar lá, estão em outros museus do mundo. Em museus de países ricos

Ou seja: é o que nos sobrou. Um acervo pobre e mal cuidado.
É isso o que resta para a maioria dos países que foram explorados: pobreza =(
E não apenas pobreza material, sabemos todos.

2.

A segunda coisa que sempre me incomoda nas visitas de museus é ver a quantidade ínfima de obras assinadas por mulheres. NUNCA TEM NADA, é de chorar.

Eu sempre lembro dessa frase quando estou num local que retrata o tempo e espaço da humanidade:

Se este assunto é novo pra você, sugiro:

  • olhar as telas dos museus e procurar por obras assinadas por mulheres.
  • Prestar atenção que todo “inicio de algo” foi feito por homens: os pensadores, os escritores, os filósofos, os músicos (Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven, Chopin) etc etc.
  • Ler sobre Camille Claudeu neste texto AQUI.  Caso queira um resumo, Camille Claudel  foi uma escultora francesa que tinha um relacionamento violento com Rodin, que foi seu professor e namorado. Viveu 29 anos internada (VINTE E NOVE) pela sua família pois era considerada “anormal”. Camille teve sua obra roubada e exposta com assinatura de Rodin e, nos laudos das internações, o médico definia como comportamento anormal: Camille não cuida da aparência, usa roupas puídas e sapatos gastos, não se lava, mantém as cortinas sempre abaixadas e as janelas fechadas, alimenta muitos gatos e vive sozinha, reclusa, numa casa quase sem móveis.

    Naquele período, para ser considerada normal você deveria se casar, ter filhos, não ter uma profissão e obedecer.

Para sofrer, um pedaço de uma carta que ela trocou com o irmão:

“Hoje, três de março, é o aniversário do meu sequestro em Ville-Evrard: faz sete anos que faço penitência nos asilos de alienados. Depois de terem se apoderado da obra de toda a minha vida, mandam-me cumprir os anos de prisão”. (DELBÉE, 1988, p.201)

Ou seja: obra de Rodin é linda mas… é dele mesmo?

Camille morreu aos 79 anos e seu corpo foi jogado em uma vala comum.
Agora amplie Camille para tantas e tantas mulheres silenciadas nessa vida.
(leia o texto que linkei lá em cima, sérião!)

Quer mais?

Este texto veio a calhar direitinho, com exemplos claros, simples e de fácil entendimento:
>> Onze casos em que homens apagaram mulheres excepcionais da história (AQUI)
Se o mundo tivesse sido justo, estas corajosas estariam nos livros didáticos – Sara Navas

Ou seja, depois desses passeios que são deleite para meus olhos, fico digerindo essas sensações de impotência por dias e dias. É mais ou menos a sensação que tenho toda vez que fico fuçando o trabalho feito nos ateliês de alta costura: tudo é tão lindo e feito com tanto esmero, mas serve a quem? Veste a quem? Faz o que com o restante?
Apesar de bela, a alta costura está aí também para reforçar o luxo e a riqueza (que existe graças a miséria de tantas pessoas) e a diferença social entre ricos e pobres. É linda, recheada de técnicas que permitem melhorar o meu ofício, mas que também me faz pensar que ela reafirma o poder de poucos sobre muitos.

Sei lá, não consigo terminar este texto de forma positiva.
As vezes até o belo pode ser cruel.

E você, o que acha/sente sobre isso? Me conta?

Patricia C

obs. 1.se você gosta deste assunto, sugiro muito seguir a página “As mina na história”, um dos poucos locais realmente decentes dentro daquele Facebook.  https://www.facebook.com/asminasnahistoria/

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