Blog, costura

O vestido de monges

Já comentei algumas vezes que festa de casamento é uma das coisas mais raras da minha vida. Fui em pouquíssimas e, nessas poucas, eu nem era próxima dos noivos.

Daí que há uns 10 dias fui convidada para ir num casamento num domingo. A única coisa que eu sabia é que era um casamento de 4 mulheres (dois casamentos) e que seria num casarão na Vila Mariana. Só.

Num instante seguinte à notícia, me animei de fazer uma roupinha para ir, afinal, com essas tantas mudanças e temporadas em países gelados, o que menos tenho é roupa de calor. Lembrei de um tecido que comprei há pouco tempo com estampa de monges e então comecei a rascunhar um modelo no papel.
Aí, minha filha, entra o problema que já me ocorreu outras vezes: a paixão.

Com o tecido escolhido e desenho aprovado, uma vontade louca tomou conta do  meu corpo. Vem um desejo imenso de fazer acontecer com aquelas idéias e pronto, nada mais me segura. Absolutamente nada.

O problema nisso é que eu tinha apenas duas tardes e uma manhã para fazer um vestido com plissado, godê e um recorte assimétrico. E como sempre, forrado. risos.

O modelo:

Eu havia visto uma foto de um decote e a ideia da roupa partiu dali: um decote profundo com um plissado no busto. A saia, queria  que fosse sem muito volume mas fiz um recorte assimétrico pra fazer uma graça.

Então fiz um post no Instagram anunciando que iria fazer um vestido em pouquíssimo tempo ( para assistir, aqui) e comecei a modelagem com um traçado BEM simples de base do corpo (é o que mais tenho feito, inclusive nas aulas ) e a partir daí já fui fazendo a adaptação de modelo conforme o desenho.

Na primeira tarde fiz a base, a adaptação e não aguentei: peguei um tecido baratinho que tinha aqui e cortei uma tela pra ver se o molde estava caminhando conforme o desenho e os meus desejos.

Já falei 500x da importância da tela, e isso se reforça na hora de fazer algo com um tecido mais caro: melhor testar o molde num baratinho (que será reaproveitado em outras peças) do que testar no tecido final.

Em seguida cortei o forro naquele meu rolo de seda que comprei uma vez na Nova Zelândia (conto dele AQUI) e parte das peças do vestido. E fui dormir ENLOUQUECIDA de vontade de costurar tudo.

(alguém mais fica assim?)

No segundo dia, após a aula de costura para iniciantes que dou todo sábado, corri na 25 para tentar encontrar um zíper. A 25 não é meu lugar favorito para comprar essas coisas mas era o único local aberto naquele horário (o Brás, querido, fecha às 12:00h em média). Entrei em umas 5 ou 6 lojas de armarinho e nada, ninguém tinha um zíper off white ou cinza clarinho de 60 cm, invisível. Acabei comprando o de 40 e voltei pra casa, desconfiada.

E das 15:00 às 01:00 am costurei intensamente: fiz o plissado, cortei e costurei os forros, coloquei o zíper, provei etc. Queria muito terminar o vestido no sábado mas a frente da saia estava me dando uma certa dor de cabeça porque o eixo do viés não tava realmente legal e isso me fez desmanchar a frente umas 3x.

Chegou uma hora que eu estava exausta e precisava parar, mas fui salva por uma notícia: o casamento seria às 14:00 horas, não de manhã, então eu ainda teria a manhã para fazer algo.

Fui dormir depois de um banho gelado porque São Paula estava derretendo aos 35 graus e, mesmo com o corpo cansado, a cabeça não parava, pensando em como melhorar a saia do vestido. E enquanto o sono não vinha, retirei o zíper.

No domingo acordei 06:40 e voltei pro vestido. Apesar de ter dormido pouco, descansei e estava bem para seguir com a peça. Então recosturei o zíper (coloquei um mais escuro de 60 ), fiz as costuras laterais, dormi um pouco, acordei e  finalizei o forro e então provei.

Na prova, a única parte que não me deixara satisfeita anteriormente continuava me deixando insatisfeita: o eixo do godê 🙄.

Nisso,  às 11 am, eu suaaaaaaando neste calor senegalês, desencanei de correr.

Achei que seria coerente refazer a saia (haahahahahaahahahaha risos) e finalizar o vestido com ela me agradando em modos gerais. Então coloquei o vestido no manequim, arrumei minha bagunça toda, tomei um banho bem frio, passei o vestido azul e assim fui pra festa, que foi bem divertida, por sinal.

O vestido de monges fica pro Ano Novo.

Agora, o que falta fazer é:

Fechar a costura lateral esquerda e a traseira,
A barra,
Passar tudo,
Fechar alguns dos plissados com pontos invisíveis à mão.

Aprendizados e lembretes:

  • Fazer um vestido com a modelagem muito elaborada em pouquíssimo tempo, não é uma boa idéia. Não vale o cansaço. Se eu tivesse escolhido um modelo mais simples, teria dado certo. Mas cadê bom senso?
  • Apesar disso, tudo o que fui fazendo na modelagem foi dando certo e isso me dá uma alegria sem tamanho. Apesar de estudar bastante a técnica da modelagem, muita coisa faço intuitivamente e isso me deixa feliz porque entendo que modelagem é sim, técnica, mas desenvolver o olhar pra forma e proporção a gente constrói com o tempo e as experiências.
  • Um bom tecido será sempre um bom tecido. ♥️

E pra quem perguntou, o tecido é da Werner Tecidos.

Bom, agora finalizarei o vestido pra usar no Reveillon. Sol, praia, amigas e meu vestido búdico.
E você, faz essas loucuras também? Conte suas histórias nos comentários.


( Lara Rogedo eu sei que faz, já vi uns videos no canal dela e passei mal hahaha)

Feliz Natal,
Pat

Obs. Agenda de aulas se atualizando, próximas paradas: SSA, Fortaleza e Brasília. Quem vamos?? Aqui: https://patricia-cardoso.com/agenda/

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Jaquetinha vinho de linho – o processo

A parada foi mais ou menos a seguinte: estava andando por Amsterdam e vi uma jaquetinha fuefa numa loja. Entrei, provei, salivei e saí.
Saí mas fiquei com a bichinha na cabeça… Percebi que o modelo era simples (quase lembrando uma camisa) mas mais curtinha e feita no linho. Como eu tenho um corte de linho aqui AND não costumo comprar roupas, corri pro papel pra traçar uma modelagem e ver no que ia dar, até porque não tenho nenhuma peça de roupa assim, pra usar em noites quentes/levemente frias, sabe?

E o legal de algumas peças é que as faço no calor da emoção: fico tão empolgada que largo tudo o que estou fazendo, limpo a mesa, estico o papel e começo.

A modelagem iniciou pela base da blusa justa, que é a que já mostrei varias vezes no Youtube e que fiz há muitos anos. Tem tanta gente me pedindo base de blusa que preciso reestudá-la pra fazer e ensinar, porque quando uma base está bem feita, vc não precisa ficar refazendo. E é isso o que aconteceu com a minha: tá tão certinha que nem me preocupo mais, toco qualquer modelagem com ela sem medo.

A manga que tracei é a mesmíssima que ensinei AQUI. Adoro este traçado, apesar de ter algumas contas, ele é construído de forma limpa e as mangas ficam muito boas. Nunca uma manga minha deu errado.
{beijo, Esmod (essa manga é de lá, da escola francesa) ♥️}

Aqui, a modelagem completa: parte de fora, forro, bolso, manga e golas:

Em seguida cortei a tela.
Cês tão carecas de saber que nunca pulo essa parte, afinal é ela que me dá noção se a modelagem está indo bem e se a roupa me serve. É provando a tela que corrijo quaisquer diferenças no traçado e corto meu tecido com segurança.
E ó, nem faço telas completas:

Veja na foto abaixo: eu só fiz uma das mangas porque a idéia é ver se a mesma está alinhada com o corpo da blusa e se o comprimento está ok. Neste caso, não tem porque fazer as duas, uma já vai me dar a resposta.
Mas neste molde a gola me incomodou… 😯

A gola:

Quem iniciou nas modelagens sabe que não há um jeito único pra fazer qualquer coisa que seja. É como fazer um bolo de chocolate, há mil receitas. O mesmo se repete para traçados e técnicas de modelagem plana.

Daí que tracei uma gola simples. A bichinha ficou bonitinha e encaixou direitinho na jaqueta, mas estava me incomodando porque parecia MUITO uma gola pra camisa, sabe? Justinha, certinha demais.
Por um instante achei que eu havia feito algo errado, então cortei uma segunda gola no algodão cru, costurei e provei. Mesmo resultado. A golinha estava fofa, mas eu não queria uma gola fofa, queria uma gola correta pro projeto: uma jaqueta.

Larguei lá. Então continuei fazendo a jaqueta, costurando o forro, os bolsos e no final, voltei pro traçado. Decidi testar uma gola com pé e aí a coisa começou a andar: encaixou bem e ficou bacana pro porte da peça.
Na foto abaixo você consegue ver o traçado e a gola no algodão cru. Eu ainda fiz um segundo ajuste, reduzindo a frente porque achei que ficou pontuda demais (tem as marcações de lápis na gola) e reduzindo o bico, a idéia é que desse uma proporção mais adequada pra gola toda. Deu certo, mas se vc olhar o molde, vai ficar com a impressão que ele está torta, mas na peça encaixou bonitinho (veja aqui).

Depois vou ensinar essa gola no canal, prometo =)

Detalhes:

Por dentro coloquei dois bolsos internos pra guardar documentos e celular. Assim posso andar sem bolsa por aí. O bolso que fiz foi este, ó.

Por fora fiz dois bolsos grandes que me deixaram meio indecisa entre: gostei ou não?
A questão é que achei a tampa do bolso grande demais quando vi a jaqueta pronta, mas decidi não desmanchar e refazer a tampa por um motivo: tenho gostado muito de modelagens mais esquisitas, formas um pouco mais largas e peças menos coladas ao corpo. Manter essa “tampona” aí é só o primeiro passo pras roupas que ando achando legais, ou seja, um pouco longe do que tenho vestido nos últimos anos. (vou colocar qq txt aqui pra matar essa viúva,rs)

Na lateral, uma cordinha com ilhoses .
Mas inventei de fazer as cordinhas e não gostei nada nada.
Ontem fui à feira e comprei um cadarço e troquei. A cor não é 100% mas ainda assim ficou mais legal do que na foto abaixo.

Materiais utilizados:

Linho que comprei há mais de 2 anos nessa feira aqui, na Nova Zelândia (abri o vídeo pra ver quanto paguei e OMG detesto os vídeos antigos hahaahaha. Aquele cabelão, socorro!).

Pro forro usei acetato para forro de ternos, comprado no Brás ano passado. Achei esse corte num cestão e peguei sem pensar muito, afinal, é uma cor que costuro bastante, caberia SIM em algum projeto =)

Na gola usei entretela de malha colante preta e os botões são de pressão de costura manual, que compro em armarinhos de costura (já vi pelo Brás-SP). Só que acho que vou retirar os botões porque fiz a modelagem pensando em casa de botão + botões comuns, daí olho pra ela e acho que está faltando algo, sabe?

Sobre o tempo, eu não fiz uma conta exata, mas acho que entre começar o traçado e terminar a peça, levei uns 5 dias para fazer tudo. 5 dias trabalhando pelo menos 8 horas (eu fiz em mais dias espaçados, mas fiz essa conta pra dar uma idéia). Se eu fizesse uma segunda faria mais rápido, claro, mas entre traçar, testar, costurar, descosturar e etc, o tempo correu.

E pra fechar, mais algumas dessas fotos lindas que não sei lidar.

As fotos bonitas foram feitas pelo @reifus e as normais são minhas mesmo, risos.

Eu adorei o resultado final. Tenho certeza que essa jaquetinha vai bater muita perna por aí e que ela ficou bem feita também. Mas o que mais gosto mesmo é a satisfação quando termino uma modelagem e a peça fica bem do jeito que eu desenhei em 2D. Ver que o molde encaixou, que a percepção do modelo e as medidas aplicadas bateram não tem preço.

Também fiquei bem satisfeita com o forro. Os bolsos internos ficaram mais ou menos bons (confesso!) mas olhando como um todo, acho que o forro teria passado pelo crivo do alfaiate que trabalhei.
Agora me diga, o que vc achou? Tem alguma dúvida? Deixe seu comentário, vai! Muito triste um blog sem comentários 😅

Boas costuras e boas modelagens,
Pat