Blog, textos

Desmontando um ateliê

Editar os últimos vídeos feitos dentro do apartamento onde eu mova na Nova Zelândia (este , este e este) foram como mexer num álbum de fotos. Eu olhava cada frame do vídeo e pensava: mas gente, eu tinha tudo isso? Só que no instante seguinte lembrava que “tudo isso” foi vivido há cerca de um mês atrás.

1

Quando a Alemanha surgiu na nossa vida ficamos animados e começamos a estudar as possibilidades. Havia o medo da língua desconhecida mas também a excitação da cidade muito bem localizada geograficamente. Assim “tico e teco” começaram a viajar pensando em todos os museus que poderíamos ir e também no tanto que a Europa poderia nos proporcionar em relação a deslococamentos, incluindo o fato de estarmos bem mais perto do Brasil. Os olhos brilhavam!

Quando saí de São Paulo, trouxe comigo minhas malas bem recheadas de ítens, muitas desses, de costura. Na Nova Zelândia comprei muitas coisas, tanto porque precisava (máquinas, mesa, cadeira etc) como por oportunidade (manequins, tecidos lindos, revistas, livros, coisas bonitas de costura mas sem tanta utillidade etc). Aquele espaço onde eu gravava todos os vídeos era exclusivo meu e relativamente organizado, então eu ia deixando tudo lá. Quando soube que iria mudar, comecei a ficar preocupada, eu sabia que nem tudo caberia nas malas que eu tinha e fazer a seleção do que trazer não seria nada fácil..

2

Meu pensamento inicial foi bem simples: Vou separar o que realmente quero para levar. As coisas que gosto, que podem ser úteis mas que encontro em qualquer lugar, tentaria vender ou doar. No primeiro instante pensei em trazer as duas máquinas. Em seguida, pensei: 2 x 10k não é uma boa idéia.

E nisso a overloque entrou rapidamente pra lista de coisas a vender, incluindo mesa, cadeira, manequim vermelho, tecidos e miudezas no geral. A verdinha viria comigo de qualquer jeito: eu a colocaria no fundo de uma das malas e rechearia a mala com minhas roupas e tecidos e ela viria protegidinha. ♥︎

Então comecei a organizar a venda de todas as coisas da casa. Paralelo a isso, organizando documentos, vendo entrega de apartamento, fazendo minhas encomendas, organizando viagens e pesquisando passagens para mudar…
Ahm, as passagens aéreas ✈︎ ✈︎ ✈︎

5

Um dos últimos trabalhos que fiz: consertos das bandeiras do Consulado.
E chovia tanto nesse dia..

As passagens aéreas

Comprar tickets que nos permitiriam sair do começo-do-mundo rumo ao velho continente foi tipo tomar uma surra: à cada clique ardia um pouquinho as costas. Ou as passagens eram caras ou os trechos eram muitíssimo demorados – sim, no superlativo absoluto sintético – (risos!) porque demorados, todos os vôos saindo da Oceania são.

No fim, achamos uma passagem legal: bom preço, boa rota e bom tempo de viagem. Sairíamos de Wellington dia 02 de Outubro e chegaríamos na Alemanha no dia 04, passando por Singapura e Istambul.

Claramente lembrei de checar a franquia de malas e a informação não era lá muito clara: 30k.
– 30 kilos o que? uma mala? duas de 30? Duas de 15? Qual a dimensão aceita?

E com isso comecei a vasculhar todo o site da cia aérea. O site da Oceania, o site americano, o brasileiro e até a versão turca. Triste foi ver que a franquia de bagagem na classe econômica era 1x30k sem choro ou sem vela. Para business, 1x 40k e beijo no ombro.

Mas existe a opção pagar por mala extra, certo? Sim, existe, mas quem decide o valor da mala exta é a própria cia aérea* e custava 35 euros o kilo adicional , ou seja, 10k = 350 euros. 30 kilos = MIL E CINQUENTA EUROS para levar uma mala.
De boa, nem minhas coisas custam isso. Que balde de água fria.

Também pesquisei: outras cias aéreas levando mala extra, correio, fedex (e afins), empresas especializadas em mudança de baixo custo (container no navio), empresas de mudança que compartilham o container etc etc etc. Nada era totalmente viável. Ou nossas coisas não se encaixavam nos requisitos (por serem poucas – comparando com mudanças reais onde as pessoas levam a casa toda) ou não cabiam no que era ok pagar.
Além disso, enviar coisas para outro país não é nada simples, há uma burocracia gigante envolvendo todo o processo, incluindo listar item à item dentro da caixa, seguros etc.

Não havia escolha, teríamos que deixar tudo pra trás.

3

No meio do olho do furacão: tentando encaixar as coisas na mala e separando “montinhos” para doar / vender

Comecei preparando o emocional de que eu me mudaria com o mínimo AND que no fim, são apenas coisas.

A máquina é linda? É, mas há outras máquinas no mundo (além da verdinha ser Sueca, bem possível encontrar alguma pela Europa). As revistas e os livros que eu tinha eram legais? eram, mas… Até o manequim azul, que eu achei que conseguiria desmontá-lo por ser de papel e trazé-lo dobradinho, entrou na dança.

Hoje -um mês e meio depois- sinto falta de alguns livros e de alguns tecidos que deixei pra trás. Sinto até falta das máquinas (já que está relativamente difícil encontrar outra) mas é assim mesmo, toda escolha tem seu ônus e bônus e a gente escolheu mudar e as coisas não puderam vir. Bola pra frente.

Mas pra listar:
– a overloque foi pra Ellyy, que eu dei aula
– a verdinha foi pra uma mocinha neozelandesa e costureira chamada Rachel
– o manequim vermelho foi pra outra neozelandesa que começou a costurar há pouco
– o manequim azul de papel foi comprado por um rapaz sapateiro
–  tecidos, miudezas, revistas e aviamentos foram para duas amigas queridas

Acho que quase tudo o que eu tinha e gerava certo apego foram para pessoas legais. E isso é massa! Eu sei que são apenas coisas, mas são coisas úteis e boas. E com pessoas bacanas ♥︎

4

 última semana na NZ, terminando o vestido da Veronika e o casaco da Emi…. a casa já estava bem pelada

Em Nov/2016 meu status é o de uma pessoa “sem nada”. Tenho alguns tecidos, duas réguas, minha tesoura, poucos aviamentos e algumas linhas.

Por um lado, há uma sensação boa de não ter nada e ter a possibilidade de repensar isso, ou seja, comprar menos e acumular menos ainda. Também há uma sensação legal de continuar estudando modelagem, já que todos os meus moldes foram para o beleléu e eu vou refazer algumas coisas que não pude trazer (nem preciso falar nada sobre minhas roupas, certo? Os casacos de frio foram todos doados, inclusive aquele azul, novinho..)

Mas enfim, é assim mesmo.


 

Aprendizados dessa mudança:

1) Não achar que tudo no Br é uma merda e nos outros países, tudo lindo. Veja só, nossa franquia de bagagem brasileira são duas malas de 32k quando a maioria dos paises não chega nem perto disso. A mesma passagem que eu comprei, saindo do Br seriam duas malas de 32. Saindo da NZ, 1 de 30.

2) Fui pra NZ pensando seriamente em não acumular nada e, mesmo tendo pouca coisa, no final, eram mais do que eu imaginei. No fim, estava acumulando de novo.


 

 

É isso. E está tudo bem.

Love,
P

Blog, costura, textos

Nova Zelândia e a hora de dizer adeus

Parece que foi ontem quando resolvi colocar minha câmera na bolsa e seguir para o trabalho. Os dias na alfaiataria seguiam seu ritmo e o céu estava azul, com um sol brilhante aos 6 graus do inverno de Wellington. Eu me sentia feliz ao voltar à clicar a cidade com uma qualidade um pouco maior que a do celular e por sorte, guardei essas fotos.

1_c 1_bvitrine de uma loja na Cuba St | Floricultura no caminho do meu antigo trabalho

Do último post pra cá passaram-se quase dois meses – o tempo, este danado – passa tão rápido que a gente mal dá conta de processar as informações.

E tanta coisa aconteceu: saí da alfaiataria, engatei um MONTE de trabalhos dentro de casa, dei aulas, me envolvi com gente querida, costurei com minhas amigas, viajamos pela Ilha Sul de carro, visitamos consulados, entregamos nosso apartamento neozelandês e pisamos em 3 continentes. Foi assim que me despedi da Nova Zelândia: num evento fugaz que só pôde ser minimamente processado durante 36 horas de vôo entre Wellington e Köln.

2_aprédio antigo – parte do meu caminho diário

Eu adorava viver na Nova Zelândia. A minha vidinha pacata, aquele mar todo e as lojinhas de tecido sempre fizeram com que eu me sentisse satisfeita lá. O mais engraçado é que o vento da mudança assopra fortemente e leva tudo de uma vez.
A vida foi mudando e de repente começou a aparecer um tanto de trabalho pra mim; ao mesmo tempo fui conhecendo pessoas muito legais e me envolvendo com elas; e começei a dar aulas e de repente era hora de ir embora. Como assim??

2_b

1_avitrine de uma loja de tecidos e vitrine de uma loja de decoração e presentes na Willis St.
Diz se esse lenço não está um amor?

O final de Agosto e o mês de Setembro foram tão corridos que algumas horas  eu me sentia patinando num piso molhado com detergente e água: era divertido mas mal dava pra curtir direito por conta do perigo. E meu perigo era a falta de tempo para fazer todas as coisas que eu queria fazer.

Duas viagens programadas, alguns consertos/ajustes para entregar, um vestido e um casaco para fazer, aulas de costura, burocracias com documentação, venda de tudo o que dava pra ser vendido e se despedir das amigas. E que saudade delas! **

1 23

rosa5 4♥ Miky, Inessa, Dudu, Sami, Emi, Rapha, Laila, Ellyy 
Nossos jantares, cafés e rolês ♥

Tem pouco mais de um ano que me caiu a ficha que a Nova Zelândia havia sido o meu local de realização. Foi lá que eu realizei o sonho de viver em outro país, de desenvolver uma segunda língua, de morar perto do mar e de sentir a neve. Quando isso me caiu a ficha, tornou-se o alívio para os dias difíceis ou para quando a saudade apertava.

11

A neve vista de cima. Desculpe o linguajar, mas só um “caralho, que lindo” cabe aqui.

Dentre as dores e delícias de ser uma expatriada, fui muito feliz nesses quase dois anos neozelandeses. Só que realmente foi mais rápido do que eu imaginava. Ok que não fomos para a NZ pensando em ficar lá por muito tempo mas também não imaginei que me mudaria tão de repente. Mas valeu. Valeu conhecer cada pessoinha de um cantinho do mundo, valeu comer o melhor roti do planeta, ver os lagos coloridos e paisagens deslumbrantes. Valeu trabalhar numa alfaiataria que foi quase uma pós graduação pra mim, valeu até chorar de saudade.

Foi bom, muito bom.

marzao

NZ está no meu coração. Quem sabe um dia a gente volte à se encontrar, não?
Hei konã rã Aotearoa*
Foi ótimo viver em você

com amor,
Pat

 

 


 

* obrigada, Nova Zelândia – na língua Maori. Aotearoa é o nome Maori para NZ e significa terra de longas nuvens brancas.

** sorry, usei o feminino porque são a maioria.